Um projeto da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP), coordenado por Teresa Cunha Ferreira e direcionado para o estudo da gestão e conservação do complexo da Piscina de Marés, em Leça da Palmeira, projetado por Álvaro Siza entre 1960 e 1973, acaba de garantir um financiamento de 100 mil euros no âmbito do programa ‘Keeping It Modern’ , promovido pela prestigiada Fundação Getty (EUA).

Trata-se da primeira vez que uma obra localizada em Portugal é distinguida desde a criação, em 2014, deste programa dedicado à salvaguarda e preservação da arquitetura moderna a nível global, e que este ano tem a sua última edição.

Com a duração de três anos e o apoio da Câmara Municipal de Matosinhos, o projeto dedicado ao estudo da Piscina de Marés tem como principal objetivo o desenvolvimento de um plano de gestão e conservação para o icónico complexo assinado por Álvaro Siza.

Os trabalhos vão assentar na documentação da história, da construção e dos valores patrimoniais do edifício, na implementação de ferramentas digitais de levantamento, inspeção e monitorização, na investigação sobre o diagnóstico e reparação do betão armado, assim como na elaboração de manuais de manutenção e de utilização com vista à sua gestão e preservação futura.

Propõe-se, igualmente, a criação de uma metodologia que possa ser adaptada a outras obras de Álvaro Siza incluídas na lista indicativa do Património Mundial, proposta em 2016 pelo Governo Português à UNESCO, assim como a outras obras de arquitetura do século XX em Portugal.

Salvaguardar um “património em risco”

“Trata-se de uma oportunidade única de desenvolvimento de um plano para a gestão e conservação futura desta obra paradigmática no contexto nacional e internacional, e do percurso profissional de Álvaro Siza. Além disso, estando atualmente em curso uma obra de reabilitação da Piscina coordenada por Siza, será possível documentar uma intervenção contemporânea de qualidade e, com a sua pedagogia, desenvolver um plano que respeite os princípios arquitetónicos, a integridade e a autenticidade do edifício”, aponta a coordenadora do projeto.

Para Teresa Cunha Ferreira, “este projeto enquadra-se também na temática da salvaguarda, reabilitação e conservação do património do século XX que, apesar do seu reconhecimento internacional, é em Portugal um ‘património em risco’ por se tratar de um legado recente, ainda não suficientemente reconhecido pelo público em geral, mais desprotegido do ponto de vista legal e, muitas vezes, alvo de abandono, de falta de manutenção ou até de intrusiva transformação”.

O projeto alinha-se igualmente com a missão da FAUP, e do seu Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo, de promoção da excelência científica e cooperação internacional, e constitui uma das linhas de atuação da Cátedra UNESCO “Património, Cidades e Paisagens. Gestão Sustentável, Conservação, Planeamento e Projeto”, atribuída recentemente à Universidade do Porto através da FAUP.

“Para a FAUP, a aprovação do projeto pela Fundação Getty reforça o reconhecimento internacional da qualidade e do carácter inovador da atividade desenvolvida pelos seus docentes e investigadores na área da conservação e reabilitação do património, onde se inclui, naturalmente, o património contemporâneo”, nota o Diretor da FAUP, João Pedro Xavier. Em simultâneo, é também um reconhecimento, não só da arquitetura ímpar de Álvaro Siza, o mais premiado arquitecto português (Prémio Pritzker em 1992), como também do seu legado enquanto professor, hoje jubilado, da FAUP.

O estudo será desenvolvido por uma equipa multidisciplinar nas áreas da arquitetura e engenharia, coordenada por Teresa Cunha Ferreira (FAUP) e composta por Rui Fernandes Póvoas (FAUP), Paulo B. Lourenço (Universidade do Minho) e Ana Tostões (IST-Universidade de Lisboa).

O projeto contará também com a participação ativa do arquiteto Álvaro Siza, do ICOMOS-Portugal, assim como com o apoio da Câmara Municipal de Matosinhos e o apoio institucional da Casa da Arquitectura.Em aberto está ainda colaboração de outros docentes e investigadores da FAUP, bem como o envolvimento de especialistas nacionais e internacionais com experiência na temática da conservação da arquitetura moderna (ICOMOS, DOCOMOMO, Getty Conservation Institute, entre outros).

Um ícone na obra de Álvaro Siza

Construídas na década de 1960 e inauguradas em 1966, as Piscinas de Marés permanecem como uma das obras mais emblemáticas de Álvaro Siza. Localizada em Leça da Palmeira, destaca-se pela integração harmoniosa na paisagem da costa marítima. Inclui duas piscinas de água salgada, vestiários, balneários, e um bar de apoio, funcionando durante a época balnear, entre junho e setembro.

Durante todo o ano é possível a realização de visitas guiadas de interesse arquitetónico e/ou técnico, através da Casa da Arquitetura. Em 2011, a obra foi classificada como Monumento Nacional e, em 2017, incluída na lista indicativa do Património Mundial pela UNESCO.

Em 2019, a Câmara Municipal de Matosinhos deu início ao processo de requalificação do conjunto, estando a obra ainda em curso.

Sobre o Programa “Keeping It Modern”

O projeto para a Piscina de Marés foi um dos 13 selecionados – entre 90 candidaturas – naquela que foi a última, mas também a mais concorrida edição de sempre do programa lançado em 2014, com o objetivo de apoiar o desenvolvimento de pesquisas direcionadas para a conservação de edifícios modernos em todo o mundo mundo.

Para além do projeto da FAUP, a edição 2020 do “Keeping It Modern” distinguiu ainda projetos a decorrer na Alemanha, Países Baixos, Reino Unido, Rússia, Chile, Índia, Kuwait, Nigéria e Senegal. A chamada “reutilização adaptativa” dos edifícios e os desafios de manutenção e conservação são transversais a todas as propostas premiadas com uma dotação global de 1,9 milhões de euros.

O completo da Piscina de Marés junta-se igualmente a um conjunto de 77 edifícios construídos no século XX, em 40 países do mundo, que já foram distinguidos pela Fundação Getty desde a criação do programa. Em edições anteriores, a fundação norte-americana já tinha apoiado projetos de conservação e salvaguarda de edifícios como a Robie House de Frank Lloyd Wright (Chicago, Estados Unidos), o edifício da Bauhaus de Walter Gropius (Dessau, Alemanha), a Casa E-1027 de Eileen Gray, (Roquebrune-Cap-Martin, França), o Sanatório Paimio de Alvar Aalto (Paimio, Finlândia), o Apartamento e Estúdio de Le Corbusier (Paris, França), o MASP – Museu de Arte de São Paulo de Lina Bo Bardi (São Paulo, Brasil), ou a Casa Eames de Charles e Ray Eames (Califórnia, EUA).

Em 2019, foi distinguido o projeto para a Estação Central da Beira, em Moçambique, coordenado pela Universidade do Minho.