“Sapos de chuva”, conhece a expressão? E salamandras de fogo? Já utilizou a planta de arruda? E uma “pedra de raio”… Conhece alguém que tenha? Estas são as peças que o Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC-UP) vai expor no átrio principal da Reitoria da U.Porto ao longo do mês de fevereiro. Superstição é o tema do “Breviário” para o mês que agora inicia.

Para esta edição, Helena Gonçalves, curadora da coleção dos Peixes, Anfíbios e Répteis do MHNC-UP, escolheu um grupo “mal amado” de animais: os anfíbios. “Distinguem-se dos repteis porque têm a pele nua, ao contrário dos repteis que têm escamas”, começa por explicar.

Alguns mitos urbanos e superstições apontam para a ocorrência de “chuvas de sapos”. O que poderá ser? Como surgiu esta expressão? Helena Gonçalves explica que “quer no outono quer no inverno, o sapo comum (espécie que teremos em exposição) sincroniza a sua reprodução com os dias de chuva. É nessa altura que todos juntos se deslocam para zonas próximas dos ribeiros onde se reproduzem”. É desta migração, normalmente em grande escala, que surge a designação “chuva de sapos”.

Helena Gonçalves, curadora das coleções dos Peixes, Anfíbios e Répteis do MHNC-UP. (Foto: U.Porto)

Em exposição estará também um animal que, na mitologia grega, representava o elemento fogo: a salamandra de pintas amarelas, ou “salamandra de fogo”. “É um animal que vive também em ambientes húmidos”, afirma Helena Gonçalves.

“Quando o ambiente fica mais seco, para a pele não secar, a salamandra tem tendência a esconder-se nos troncos, ou nas pilhas de madeira”. Ora, quando essa madeira é utilizada para fazer fogueiras, ao sentir o calor, naturalmente, foge. A sua coloração com manchas amarelas e/ou vermelhas contribui para este mito.

Segundo a crença popular, o manuseamento de alguns anfíbios, como as salamandras e os sapos, é muitas vezes considerado responsável por “males de pele”, afirmando-se também que a urina dos sapos provoca cegueira. Os espécimes que veremos em exposição foram recolhidos em Portugal e chegaram até ao MHNC-UP no início do século XX.

Proteger das más energias

Mas nem só de “bichos” viverá o Breviário durante o mês de fevereiro. Cristiana Vieira, curadora das coleções do Herbário da U.Porto, selecionou uma planta medicinal, agora prensada e desidratada: a arruda.

Utilizada por agricultores como proteção contra insetos predadores de outras plantas, é também, “em culturas europeias e não só, uma planta associada à superstição e às más energias”. Consegue afastar animais indesejados, como insetos, piolhos e pulgas graças à forte intensidade dos óleos essenciais que se conseguem extrair da planta. Cristina Vieira acrescenta que a planta está, muitas vezes, “associada à limpeza energética” dos espaços.

Uma crença popular que remonta aos tempos coloniais, de raiz africana, dita que para afastar os maus espírito, se deveria usar um pequeno galho destas folhas, por cima de uma orelha, ou que o galho seja mantido no ambiente. O espécime que temos foi colhido em Vila Nova de Foz-Côa, num local que, entretanto, foi inundado pela barragem do Sabor.

Cristiana Vieira, curadora das coleções do Herbário do MHNC-UP. (Foto: U.Porto)

Afastar raios e coriscos

A nossa capacidade de interpretar o que encontramos na natureza está subjacente na escolha de Rita Gaspar, curadora das coleções de Arqueologia, Etnografia e Antropologia biológica do MHNC-UP. A peça arqueológica que seleconou é um machado de pedra polida.

Porquê esta escolha? Quem encontrava estas pedras em terrenos agrícolas, que mais não são do que machados neolíticos, pensava estar perante “pedras de raio ou corisco” que “teriam caído naquela zona e solidificado”. Ao trazer o objeto para dentro de casa, a expectativa seria de proteção não só da casa, mas também dos terrenos “das descargas de eletricidade atmosférica”, nota a responsável do Museu.

O machado de pedra polida que estará em exposição na Reitoria foi colhido na freguesia do Crato, distrito de Portalegre, região do Alentejo, calculando-se que seja do período do Neolítico final.

Rita Gaspar, curadora das coleções de Arqueologia, Etnografia e Antropologia biológica do MHNC-UP. (Foto: U.Porto)

Breviário: Um olhar sobre os tesouros da U.Porto

“Inaugurado” em abril de 2023, o Breviário é uma iniciativa que tem como objetivo partilhar a beleza, as particularidades e as origens de animais e objetos que habitam o espólio do Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto, abrindo assim uma janela para o vasto património das reservas do MHNC-UP.

Todos os meses, quem passar pelo átrio de entrada da Reitoria da U.Porto (Praça Gomes Teixeira), vai então encontrar um “tesouro” proveniente do MHNC-UP. Quando estiver junto da(s) peça(s) em exposição, basta apontar o telemóvel para o QR Code e ficar a conhecer o/a respetivo/a curador/a e as histórias que tem para contar.

Quem quiser conhecer “os bastidores do museu” pode também inscrever-se e fazer uma visita às reservas do MHNC-UP.