Há 100 anos que as pinturas de Veloso Salgado adornam a Universidade do Porto

As Ciências Físico-Naturais, pintura a óleo de Veloso Salgado na Escadaria Nobre da Reitoria da U.Porto

Basta começar a subir a escadaria central do edifício da Reitoria da Universidade do Porto para perceber o impacto que as pinturas de Veloso Salgado assumem neste espaço nobre do edifício. A obra ficou concluída há cem anos.

O jornal O Comércio do Porto dava conta, no dia 13 de julho de 1917, que tinham ficado “hontem no seu logar”, mais especificamente “na escadaria nobre do palácio da universidade”, os dois “notáveis quadros do ilustre pintor J. Velloso Salgado”. Trata-se, dá conta o jornal, de duas obras “verdadeiramente notáveis” que “afirmam bem os elevados méritos do grande artista e confirmam o alto logar que elle ocupa na Arte portugueza”.

Mas, afinal, o que representam estes quadros, nesta casa vocacionada para o conhecimento? Um deles é alusivo às matemáticas. “N’um pórtico grego avulta, dominadora, a figura da Mathematica”, com uma inscrição que deixa logo o aviso: “Aqui não se entra, sem a Mathematica”. Mais abaixo, de um lado, a figura da Álgebra, do outro da Geometria e, em primeiro plano, a do Cálculo. Apresentando as figuras da Engenharia, da Física, da Química e Biologia, o outro quadro é alusivo às “Sciencias Physico-naturaes”. Todas as figuras se fazem representar com os instrumentos aos quais recorrem no âmbito do desempenho das respetivas tarefas.

O jornal destacava o conjunto “gracioso” e “muito cheio de luz”, com uma distribuição dos “acessórios” feita com “superior maestria”, acrescentando que os dois quadros “téem um magnífico effeito”, dando “grande realce à ampla escadaria cujas paredes adorna”. Resultado do trabalho de um “authentico grande mestre”.

A Matemática, pintura a óleo de Veloso Salgado na Escadaria Nobre da Reitoria da Universidade do Porto

José Maria Veloso Salgado nasceu em abril de 1864 na província espanhola de Orense. Foi viver para Lisboa, para casa de um tio, mestre da Litografia Lemos, e é com ele que começa a trabalhar como aprendiz de litógrafo. Aos 24 anos vai para Paris, onde foi admitido nos ateliers de Cabanel e Benjamin Constant, na École des Beaux-Arts. Recebeu, também, lições de Jules-Elie Delaunay, de Jean-Paul Laurens e de Fernand Cormon. Na década de 90 do século XIX estreou-se no Salon de Paris e venceu o concurso de pintura da Câmara Municipal de Lisboa (1890); enviou telas à I Exposição do Grémio Artístico de Lisboa, voltou ao Salon, alcançando uma 3.ª medalha com o quadro “Amor e Psyché” e visitou Itália, onde fez pintura de ar-livre, estudou os primitivos e reproduziu pintores renascentistas (1891).

Entre 1892 e 1894 voltou a expor no Salon e no Grémio Artístico, participou na Exposição de Arte de Munique e na Exposição Universal de Antuérpia, avolumou a coleção de prémios e foi eleito Académico de Mérito da Academia de Belas Artes de Lisboa. Em 1895 foi nomeado professor interino de Pintura Histórica da Escola de Belas Artes e dois anos mais tarde assumiu funções como professor efetivo. Continuou a participar nas grandes exposições nacionais e internacionais, pintou quadros para distintas instituições e personalidades e acumulou galardões e distinções (grau de oficial da Ordem de São Tiago, em 1896, cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra Francesa, em 1902, vogal da Academia das Ciências, em 1907). Em 1945 foi homenageado através de uma exposição coletiva realizada no Porto, tendo morrido em dezembro desse ano.

Os instrumentos científicos que teriam servido de modelo ao pintor, para o quadro alusivo às ciências físicas e naturais, encontram-se atualmente nas coleções do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto e do Museu da Faculdade de Engenharia. Nomeadamente uma bússola dos senos e das tangentes, um instrumento de medida da intensidade da corrente elétrica, adquirido pela Academia Politécnica no ano letivo de 1884-85 para o Gabinete de Física.

A investigação sobre estes quadros foi conduzida por Susana Barros (Gestão de Documentação e Informação da U.Porto) e Marisa Monteiro (Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto).