Mais de cem trabalhos inéditos de Nadir Afonso, nunca antes expostos ao público, estão em exibição na Reitoria da Universidade do Porto até 23 de dezembro de 2020. A exposição “100 Anos Nadir, Inéditos” assinala o arranque da homenagem da U.Porto ao pintor Nadir Afonso (1920-2013), um dos grandes artistas portugueses do século XX e um dos mais ilustres antigos estudantes da instituição.

Com entrada gratuita, esta coletânea de trabalhos inéditos daquele que é um dos poucos verdadeiros modernistas portugueses, constitui uma viagem por um repertório estético e teórico que fez inventar a arte moderna portuguesa da segunda metade do século XX, bem como a vanguarda europeia e francesa do pós-guerra.

O curador da exposição, António Quadros Ferreira, diz-nos que “100 Anos Nadir, Inéditos” tem como foco a “Máquina Cinética” (única obra não inédita), promovendo uma reflexão em torno de pinturas, guaches e estudos mostrados ao mundo pela primeira vez, num diálogo constante entre o pensamento e a obra, desde a formação até ao final da carreira artística.

São mais de cem trabalhos que demonstram a evolução do traço no sentido da abstração onde a “Máquina Cinética”, motor que reinventa a geometria na instalação da pintura, funciona como âncora seminal de toda a narrativa nadiriana.  Com exceção da “Máquina Cinética”,  as obras são todas inéditas, assim como as dezenas de estudos que percorrem todo o percurso do pintor: tanto os Estudos-Pensamento (até aos anos 60) como os Estudos-Experiência (a partir dos anos 60).

Herdeiro de uma “inquietação interrogante”, Nadir Afonso produziu cerca de 15 mil obras, expostas em museus espalhados pelo mundo, depurando sempre cada uma até ao absoluto da sua composição. Defendia que o homem se voltava para a geometria “como as plantas se voltam para o sol”. Obedecendo à mesma “necessidade de clareza”. O homem para quem “o mais belo espetáculo” da vida era “olhar para a exatidão das formas de um círculo, um triângulo ou um quadrado”, encontrando nelas uma exatidão capaz de criar “consonância no espírito”. Para Nadir Afonso, a geometria da forma conseguia opor-se à efemeridade das coisas.

O regresso à cidade do Porto

Esta exposição vem também celebrar a Escola do Porto como lugar de pertença de Nadir Afonso que regressa assim à cidade onde se formou, permitindo compreender o papel fundamental da Escola na cultura da cidade, do país e internacionalmente. Natural de Chaves, foi na Escola de Belas Artes do Porto que Nadir Afonso se inscreveu em Arquitetura. Depois partiu para Paris, onde colaborou com Le Corbusier, e voltou ao Porto para defender a tese A Arquitetura não é uma Arte.

Nos anos 50 trabalhou na reconstrução de cidades destruídas pela guerra na Normandia; no Brasil (São Paulo e Rio de Janeiro) foi um dos colaboradores de Óscar Niemeyer, e regressou a Paris para retomar o contacto com artistas como Vasarely, Mortensen, Bloc entre outros, orientados para a arte cinética, uma corrente que explora efeitos visuais através de movimentos físicos ou de “truques” no posicionamento das peças. Foi na capital francesa que desenvolveu os estudos que denominou de «Espacillimité».

O “Pintor das cidades”, como alguns lhe chamavam, reconhecia que por ter viajado muito “acabava por ser apanhado nessa emoção” que as cidades lhe transmitiam. Assim como tinha sido “apanhado pela emoção” que lhe transmitiam as montanhas de Trás-os-Montes. Em 2012, a Universidade do Porto decidiu atribuir ao seu antigo estudante o título de Doutor Honoris Causa.

Para Fátima Vieira, vice-reitora da Universidade do Porto com o pelouro da Cultura “100 Anos Nadir, Inéditos” é “um presente à academia e à cidade: uma cronologia de inéditos que ajuda a compreender a evolução da obra de Nadir Afonso e evidencia a importância da sua formação no Porto, em Belas Artes, onde integrou o grupo vanguardista dos Independentes”. A exposição celebra também a Escola do Porto como lugar de pertença do “pintor nómada do mundo e do pensamento” que regressa à sua cidade, permitindo uma compreensão do papel fundamental da Escola na cultura da cidade e do país.

“Ciência e arte têm de falar uma à outra”, assim pensava Nadir, diz-nos Carlos Fiolhais que prefaciou um dos 4 volumes de uma coleção lançada agora pela U.Porto Press. A coleção chama-se Arte e Pensamento e o 1.º volume é composto de textos originalmente escritos em francês e, pela primeira vez, traduzidos para português. Em simultâneo, a U.Porto Press lança também “Nadir, Mestre de Si Mesmo”, de António Quadros Ferreira.

Laura Afonso, viúva de Nadir Afonso, e António Quadros Ferreira, curador da exposição “100 anos Nadir, Inéditos” (Foto: Egídio Santos / U.Porto)

Atividades paralelas

A homenagem ao antigo aluno e Doutor Honoris Causa resulta de uma parceria da Universidade com a Fundação Nadir Afonso e integra um programa comemorativo variado de atividades presenciais e online com palestras, cinema, visitas guiadas, oficinas para famílias e a atribuição de um prémio no valor de 1.000 euros. O “Prémio Fundação Nadir Afonso/Universidade do Porto” vai distinguir trabalhos de criação multimédia que tenham como origem uma obra plástica de Nadir Afonso.

A Presidente da Fundação Nadir Afonso e viúva do pintor, Laura Afonso, sublinha a “entrega absoluta” do artista à arte “como desígnio de vida”, obedecendo a “uma irresistível paixão pela pintura”. Uma história que “traz consigo uma obra de características invulgares”.

A exposição “100 Anos Nadir, Inéditos” é gratuita e pode ser visitada na Reitoria da Universidade do Porto de 8 de outubro a 23 de dezembro, de segunda a sexta, das 10h00 às 13h00 e das 14h30 às 17h30 e aos sábados das 15h00 às 18h00. As visitas guiadas deverão ser agendadas através do e-mail [email protected].