Quase metade dos bebés muito prematuros não recebe os cuidados devidos

Estudo que envolveu investigadores do ISPUP e da FMUP concluiu que se todas as práticas consideradas fossem providenciadas a bebés muito prematuros, conseguir-se-ia uma redução de 18% na mortalidade intra-hospitalar. (Foto: Pexels/Leah Kelley).

Cerca de metade dos recém-nascidos muito prematuros (menos de 32 semanas de gestação) não recebe as práticas médicas de elevada evidência científica que se sabe contribuírem para a diminuição da mortalidade destas crianças. Se todas as práticas consideradas fossem providenciadas a estes bebés, conseguir-se-ia uma redução de 18% na mortalidade intra-hospitalar, segundo um estudo desenvolvido no âmbito do projeto europeu EPICE (Effective Perinatal Intensive Care in Europe), no qual participam 11 países, incluindo Portugal, através do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e da Faculdade de Medicina da U.Porto (FMUP).

“Os recém-nascidos muito pré-termo apresentam maior risco de mortalidade neonatal (até aos 28 dias após o nascimento) do que os bebés nascidos de termo, pelo que necessitam de cuidados de saúde altamente especializados e executados com sólida base científica”, refere Carina Rodrigues, uma das investigadoras do ISPUP envolvida no EPICE, cujo coordenador em Portugal é Henrique Barros, Presidente do ISPUP e docente da FMUP.

“Para além disso, as crianças nascidas muito pré-termo apresentam um maior risco de desenvolver complicações do neurodesenvolvimento, que podem incluir paralisia cerebral e problemas cognitivos, bem como perturbações na visão e na audição. Tudo isto tem consequências na qualidade de vida da criança, a curto e a longo prazo, mas também na saúde e no bem-estar dos pais, na economia das famílias e nos sistemas sociais e de saúde”, avança a investigadora.

Com a finalidade de contribuir para promover, na Europa, a sobrevivência e a saúde de recém-nascidos muito pré-termo, garantindo que o melhor conhecimento científico é aplicado na prática clínica, surgiu o projeto EPICE, que arrancou em 2011.

Um dos principais objetivos deste estudo foi precisamente “avaliar a implementação de quatro práticas de elevada evidência científica, medindo a sua utilização e o seu impacto na redução da mortalidade e morbilidade neonatal”, diz a investigadora.

As práticas avaliadas referiam-se à ocorrência do parto em unidades de obstetrícia diferenciadas, dispondo de unidades de cuidados intensivos neonatais, com equipamento tecnológico adequado e profissionais altamente treinados; a administração de corticosteroides antes do parto para ajudar a acelerar a maturação pulmonar fetal; a prevenção de hipotermia do recém-nascido (temperatura corporal na admissão na unidade de cuidados intensivos neonatais igual ou superior a 36ºC); e no que respeita ao funcionamento respiratório, a administração de surfactante pulmonar duas horas após o nascimento ou o uso precoce da pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP) para recém-nascidos com menos de 28 semanas de gestação.

Os resultados, publicados no “The British Medical Journal”, mostram que a maioria dos recém-nascidos recebeu, pelo menos, uma das práticas indicadas. No entanto, apenas 58% recebeu as quatro práticas para as quais eram elegíveis. Se estas 4 práticas baseadas na evidência científica fossem providenciadas a todas as crianças, conseguir-se-ia uma redução de 18% na sua mortalidade.

“Estes resultados mostram que o uso de práticas baseadas na evidência científica é fundamental em medicina perinatal para se conseguir melhorar a sobrevivência e promover a saúde e a qualidade de vida dos recém-nascidos muito pré-termo”, conclui Carina Rodrigues.

Estes dados foram recolhidos através da coorte europeia (estudo longitudinal) de recém-nascidos muito pré-termo criada no âmbito do projeto EPICE, atualmente constituída por 7900 crianças europeias que têm vindo a ser avaliadas ao longo do tempo. Em Portugal, dos 607 recém-nascidos com alta hospitalar, integraram a coorte 544 bebés, da Região Norte e de Lisboa e Vale do Tejo, que têm sido mais avaliadas anualmente.

Estas crianças estão agora a ser acompanhadas no âmbito de um novo projeto, o SHIPS (Screening to Improve Health in Very Preterm Infants in Europe), que está a realizar avaliações do neurodesenvolvimento aos 5 anos de idade. O objetivo é avaliar a capacidade cognitiva destas crianças, com recurso a uma bateria de instrumentos validados, aplicados por psicólogos especializados.

As crianças portuguesas que integram a coorte europeia correspondem também “à primeira coorte de base comunitária e geograficamente alargada de recém-nascidos muito pré-termo em Portugal. As informações recolhidas, com base em dados reportados pelos pais, permitirão retratar a realidade da extrema prematuridade no nosso país”, refere Henrique Barros, coordenador dos projetos EPICE e SHIPS em Portugal.  

As atuais avaliações do neurodesenvolvimento às crianças portuguesas estão a decorrer na FMUP e têm data de conclusão prevista para final do ano.