Mortalidade por doença cardiovascular e cerebral é maior em doentes VIH

Ucapa Diagnostico_infecao_sidam estudo liderado por Paula Freitas, investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), revela que a mortalidade por doença cardiovascular aumentou 500% nos doentes com VIH/SIDA nos últimos 24 anos. A prevalência de mortalidade por doença cerebral também duplicou, neste grupo de pacientes.

O trabalho em causa – galardoado com o 3.º lugar do Prémio Janssen Virologia ’14 – avaliou a prevalência das hospitalizações por doença cerebral e doença cardiovascular e respetiva mortalidade em pacientes com VIH /SIDA, desde 1989. Os dados foram comparados com os registados em pacientes não-infetados. Paralelamente, a equipa de investigação tentou perceber o impacto da introdução do cART (terapêutica antirretrovírica combinada), em 1987, nas hospitalizações por patologia cerebral e cardiovascular deste grupo de pacientes.

Paula Freitas lembra que “a mortalidade associada ao VIH diminuiu drasticamente nos últimos anos. Contudo, estes doentes têm uma prevalência aumentada de alterações metabólicas, nomeadamente, insulinorresistência, diabetes, dislipidemia e também hipertensão arterial, que aumentam o risco de doença cardiovascular”. Por outro, esclarece a investigadora, a existência do próprio vírus e o inerente estado de inflamação podem potenciar o risco de doença cerebral e cardiovascular. E “fatores como o envelhecimento e o facto de a infeção pelo VIH se tornar uma doença crónica, faz com que estes doentes fiquem sujeitos às influências do ambiente mais tempo: sedentarismo, má prática alimentar, tabagismo e envelhecimento, que também estão associados a estas patologias”.

Os autores deste trabalho consideram que o conhecimento destes novos dados pode servir para promover uma intervenção mais precoce, de modo a reduzir o risco de desenvolvimento de doença cerebral e cardiovascular nos doentes infetados pelo VIH/SIDA.

Houve uma mudança de paradigma: “há alguns anos atrás, o objetivo era manter o doente vivo, e, hoje, o objetivo é reduzir o risco de complicações associadas. Assim, o tratamento da dislipidemia, da hipertensão, da diabetes, a promoção da cessação tabágica e de estilos de vida saudáveis provavelmente poderão acrescentar anos de vida com qualidade a estes doentes”, conclui a endocrinologista.

O Prémio Janssen Virologia ’14 na área VIH/SIDA tem como objetivo distinguir os melhores abstracts, desta área clínica, apresentados durante o ano de 2013 em conferências ou congressos internacionais.

Paula Freitas é endocrinologista, professora e investigadora do Departamento de Medicina da FMUP, para além de integrar a equipa de Endocrinologia e Metabolismo do Centro Hospitalar São João (CHSJ).