Investigadores do Porto “decifram” causas da hiperatividade e défice de atenção

Calcula-se que a PHDA afete entre 5 a 8% das crianças em idade escolar, atingindo sobretudo o género masculino. (Foto: DR)

Um novo estudo assinado por cientistas da Universidade do Porto e do Politécnico do Porto (P.Porto) vem lançar novas luzes sobre a neuroanatomia da Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), condição que afeta entre 5 a 8% das crianças em idade escolar, com especial incidência nos rapazes.

De acordo com este estudo, as alterações comportamentais observadas nesta perturbação podem ser explicadas por um desequilíbrio no funcionamento entre as várias redes neuronais, o que justifica a extensão e variabilidade sintomatológica. Os investigadores apontam ainda para a necessidade de uma abordagem multidisciplinar no diagnóstico e na intervenção terapêutica, com implicações na prática clínica.

Para chegar a estas conclusões, a equipa de investigação, da qual fizeram parte Pedro Pereira Rodrigues, investigador do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, Bruno Vieira de Melo e Maria João Trigueiro, da Escola Superior de Saúde do P.Porto, analisou perto de 100 estudos realizados a nível internacional. O objetivo passou por identificar as diferenças neuroanatómicas estruturais e funcionais registadas no cérebro de crianças e adultos com PHDA, através da utilização de diferentes técnicas de imagem.

Publicado no Developmental Neuropsychology com o título “Systematic overview of neuroanatomical differences in PHDA: Definitive evidence, Developmental Neuropsychology”, este estudo indica a existência de “um envolvimento encefálico globalizado ” na PHDA, o que pode suportar os modelos etiológicos que concetualizam uma “implicação sistémica do sistema nervoso”,  e que se traduzem nas múltiplas implicações observadas ao nível das competências cognitivas, de regulação emocional, motoras, sensório-percetivas e sociais.

Uma das principais conclusões do estudo refere que as implicações da PHDA vão, claramente, além da rede frontoparietal e do sistema dopaminérgico, existindo diferenças visíveis noutras regiões do cérebro, nomeadamente em termos de volume, área, ativação e composição química. A nível estrutural, o estudo identifica uma redução no volume total do cérebro e, mais especificamente, no hemisfério direito, lobos frontal e parietal, núcleos da base, globo pálido, corpo caloso e cerebelo. A nível funcional, registam-se sinais de hipoativação do lobo frontal, níveis aumentados de N-acetilaspartato (NAA) um neurometabolito sintetizado pelos neurónios, no córtex prefrontal médio e outros sinais, consistentes com padrões de ativação em regiões do cérebro como o córtex cingulado, a ínsula, o núcleo basal e os lobos parietal, temporal e occipital.

Além das implicações na clínica, o artigo enfatiza a “necessidade urgente de ensaios homogéneos, com metodologia padronizada e replicável, que permitam a aplicação das múltiplas técnicas de imagem nas mesmas condições”.

A PHDA é uma das perturbações do neurodesenvolvimento mais comuns. Apesar de ser muito estudada, ainda suscita inúmeras controvérsias. Cerca de 60% das pessoas diagnosticadas na infância/adolescência mantêm sintomas na idade adulta.