Parkinson: Cientistas da U.Porto lançam novas base no estudo da doença

Doentes de Parkison revelam dificuldades na identificação de emoções positivas expressas pela música. (Foto: SCX)

Sentir dificuldade em perceber através do tom de voz se uma pessoa está triste, alegre ou zangada e não perceber claramente se um concerto de música transmite alegria ou serenidade são situações que descrevem o que acontece a muitas pessoas com doença de Parkinson. Partindo dessa perceção, e numa  tentativa de compreender melhor as características daquela doença neurodegenerativa e as bases cerebrais das emoções, uma equipa de investigadores da Universidade do Porto comparou pessoas com e sem a doença no reconhecimento de emoções em voz, música e faces e concluiu que os doentes de Parkinson tiveram um desempenho normal quando as emoções eram expressas através de faces, mas o seu desempenho foi inferior ao das pessoas saudáveis para emoções vocais e musicais.

Este estudo foi realizado no âmbito de uma colaboração entre as faculdades de Psicologia (FPCEUP) e de Medicina (FMUP)  da Universidade do Porto e foi financiado pela Fundação Bial e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. O artigo resultante foi publicado recentemente no conceituado Journal of Clinical and Experimental Neuropsychology.

No âmbito deste trabalho, César Lima (FPCEUP), Carolina Garrett (FMUP) e São Luís Castro (FPCEUP) estudaram 24 doentes de Parkinson, seguidos no Serviço de Neurologia do Hospital de S. João, no Porto, e 25 pessoas saudáveis com a mesma idade e escolaridade. Os doentes estavam em fases relativamente iniciais da doença e não tinham depressão ou demência.Todos os participantes foram testados usando fotografias de expressões faciais, frases que variavam quanto ao tom de voz com que eram ditas e excertos de música instrumental. Cada estímulo comunicava uma emoção particular, como alegria, tristeza ou medo.

A tarefa consistia em avaliar a magnitude com que cada emoção era expressa. Doentes e não doentes reconheceram expressões faciais igualmente bem. Contudo, quando as emoções eram expressas através da música, os doentes de Parkinson tiveram dificuldades específicas na identificação de emoções positivas, nomeadamente alegria e serenidade. Quando as emoções eram expressas através do tom de voz, os doentes tiveram um desempenho inferior ao dos participantes saudáveis em todas as emoções.

Verificou-se ainda que, no caso das emoções vocais, as dificuldades dos doentes podem ser uma consequência de alterações ao nível da capacidade de atenção, um problema frequente na doença de Parkinson. Estes resultados confirmam, de resto, estudos prévios que mostram que a doença de Parkinson pode causar alterações na capacidade de reconhecer emoções, salientando que estas alterações parecem ser mais acentuadas no domínio auditivo.

O facto de o perfil específico de dificuldades ter sido diferente na voz e na música (geral na voz, especifico para as emoções positivas na música) é um dado novo. Os investigadores acreditam que esta diferença indica que as emoções vocais e musicais dependem de sistemas cerebrais parcialmente distintos. Tem sido recentemente discutida em neurociência a hipótese de existirem muitas semelhanças entre música e voz em termos acústicos e de organização cerebral, mas o facto de no mesmo grupo de doentes se observaram dificuldades diferentes nos dois domínios sugere a existência de mecanismos específicos a cada domínio.

As razões por que a doença de Parkinson causa dificuldades no reconhecimento de emoções não são ainda totalmente compreendidas. A perda de células que produzem dopamina e as consequentes alterações nos circuitos dos gânglios da base são uma possibilidade. A dopamina e o normal funcionamento dos gânglios da base são essenciais para a coordenação dos movimentos corporais, mas sabe-se que estão também envolvidos noutras capacidades cognitivas e emocionais. O papel destes circuitos em aspectos do controlo da atenção pode explicar as dificuldades dos doentes no reconhecimento de emoções vocais. Sabe-se igualmente que a dopamina está envolvida na experiência de emoções positivas em resposta a música, o que poderá explicar o facto das dificuldades dos doentes terem sido observadas apenas para as emoções musicais positivas.

As alterações no reconhecimento de emoções observadas na doença de Parkinson são clinicamente relevantes. Elas podem contribuir para a existência de dificuldades na comunicação com os outros, reduzindo a qualidade do funcionamento social dos doentes.

Os autores

César Lima é doutorado em Psicologia pela Universidade do Porto e é atualmente Investigador Pós-Doc do Centro de Psicologia da FPCEUP e do Instituto de Neurociência Cognitiva da University College London. Já São Luís Castro é Doutorada em Psicologia Experimental, Professora Catedrática na FPCEUP e dirige o Grupo de Investigação em Linguagem/Laboratório de Fala do Centro de Psicologia da mesma faculdade. Finalmente, Carolina Garrett é Neurologista no Hospital de S. João e Professora Associada de Neurologia na FMUP.