Bronquiolite causa 20% dos internamentos em crianças com menos de dois anos

Em média, por ano, registam-se 5 mil internamentos por bronquiolite.

Em Portugal, a taxa de internamentos de crianças devido a bronquiolites agudas está a crescer, sendo que é no Norte e no Centro do país onde se registam as taxas de hospitalização mais elevadas – 26 e 27 internamentos por 1.000 crianças com menos de dois anos, respetivamente. As conclusões são de um trabalho desenvolvido por investigadores do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, recentemente publicado na revista científica Pulmonology.

Os investigadores analisaram os registos de internamento das crianças com menos de dois anos de idade. A informação foi recolhida em todos os hospitais públicos de Portugal continental, entre 2000 e 2015. Os dados, anonimizados, foram cedidos pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), ao abrigo de um protocolo de colaboração com o CINTESIS.

Os resultados revelam que cerca de 20% das admissões hospitalares de crianças com menos de dois anos têm como motivo uma bronquiolite aguda, “um resultado que evidencia a importância desta doença na população pediátrica”, explica o médico e investigador do CINTESIS, Manuel Gonçalves-Pinho.

Para além do estatuto socioeconómico, as variações de temperatura podem explicar a discrepância entre as taxas de internamento por bronquiolite aguda registadas em diferentes latitudes. “São as regiões mais a norte que registam uma maior percentagem de casos. Isto pode estar associado a questões climatéricas, que ditam que essas regiões vivam Invernos mais severos, com quedas mais abruptas de temperatura”, avança Alexandre Silva, primeiro autor do estudo. As taxas registadas nas zonas sul são bastante mais baixas (22/1.000 em Lisboa e no Alentejo, e 19/1.000 no Algarve).

“O estudo permitiu ainda observar uma tendência de crescimento das hospitalizações provocadas por esta doença. Essa tendência é mais acentuada nas crianças mais pequenas, nomeadamente nos bebés com menos de 3 meses de idade, crescendo 3,8% ao ano, contra uma taxa de 1,6% de crescimento nas crianças até aos dois anos”, referem os investigadores, que são também docentes na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

No total, foram registadas 80.491 admissões por bronquiolite aguda, nos anos em estudo, numa média de 5 mil internamentos por ano. Os rapazes foram internados com maior frequência do que as raparigas (59,7% vs. 40,3%).

O vírus sincicial respiratório, um agente patogénico conhecido pela comunidade médica como um dos principais causadores de doenças respiratórias nas crianças, foi identificado como sendo a causa de 40% dos casos de bronquiolite aguda analisados. No entanto, os investigadores assumem que esta percentagem poderá ser maior, uma vez que nem todas as crianças são submetidas a testes para identificação do vírus que está na origem da sua doença.

A equipa de investigação registou, em anos recentes, uma melhoria na forma como a bronquiolite é tratada. “Observámos uma diminuição do número de raios-X realizados, dos antibióticos prescritos e de injeções de corticoides administradas, de acordo com as recomendações nacionais implementadas pela Direção-geral de Saúde”, explicam os investigadores. No entanto, existe ainda uma prescrição excessiva de exames de diagnóstico e de tratamentos considerados ineficazes, pelo que se devem procurar implementar Políticas de Saúde mais eficientes, que promovam a melhoria dos cuidados prestados e a redução das despesas.

Os custos diretos totais referentes a esta patologia ascenderam a 72,4 milhões de euros, numa média anual de 4 milhões. Cada hospitalização custou, em média, 900 euros.

Os sintomas iniciais de bronquiolite são corrimento e obstrução nasal e tosse seca, de agravamento progressivo. A respiração pode tornar-se ruidosa e sibilante (pieira, “gatinhos”) e alguns bebés desenvolvem esforço respiratório. “Os pais devem estar atentos aos sinais de agravamento, como respiração mais rápida, ofegante e sinais de esforço (balanceio da cabeça, gemido, covinhas no pescoço, costelas marcadas) e ao aparecimento de pausas respiratórias”, alerta a pediatra Inês Azevedo. O bebé pode também apresentar alguma dificuldade na alimentação e na ingestão de líquidos, acrescenta a especialista.

Para além de Manuel Gonçalves-Pinho, Alexandre Silva e Inês Azevedo, assina este trabalho Alberto Freitas, investigador principal de um grupo de investigação do CINTESIS, especializado em Análise de Dados.