Mudanças climáticas ameaçam morcegos europeus

A Península Ibérica ode ser o "último reduto" para a a sobrevivência do morcego-orelhudo-cinzento , alertam os investigadores. (Foto: DR)

As condições climáticas têm vindo a influenciar os hotspots de biodiversidade de populações de Morcego-orelhudo-cinzento (Plecotus austriacus), podendo mesmo colocar em risco o futuro desta espécie muito comum na Península Ibérica. A conclusão surge artigo publicado recentemente na prestigiada revista científica Ecology Letters, por uma equipa internacional de investigadores que conta com a colaboração de Hugo Rebelo, investigador do CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da da Universidade do Porto/InBIO laboratório Associado.

O Morcego-orelhudo-cinzento encontra-se distribuído desde o norte do Mediterrâneo até à Europa central, e normalmente não se dispersa para longas distâncias devido à morfologia das asas, que implica elevados gastos energéticos em viagens longas. Por este motivo, estes pequenos mamíferos alados estarão particularmente expostos a potenciais efeitos das alterações climáticas sobre a biodiversidade em geral, incluindo aqueles organismos incapazes de voar.

“Através da simulação do passado e do futuro, demonstramos que a diversidade genética se concentra no sul da Europa, onde as populações sobreviveram a eventos de glaciação, mas prevê-se que alterações climáticas futuras levem a que estas áreas se tornem demasiadamente quentes e áridas para a espécie de morcego”, avisa Gareth Jones, investigador da Universidade de Bristol e líder do estudo, acrescentando que, “apesar das alterações climáticas terem sido reconhecidas como uma forte ameaça a comunidades e populações de animais e plantas, as suas consequências para a diversidade genética têm sido negligenciadas”.

Ainda segundo a equipa de investigadores, “a capacidade dos morcegos se deslocarem em busca de condições climáticas adequadas pode ser limitada por barreiras geográficas como os Pirinéus e pela perda de habitats favoráveis devido à prática agrícola, o significa que muita da diversidade genética do morcego-orelhudo-cinzento pode ficar retida em Espanha e Portugal”. Este padrão já foi, resto encontro, encontrado “em várias espécies europeias”, inclusivamente num outro estudo sobre o morcego-negro realizado no CIBIO/InBIO, em que foi possível verificar que “a Península Ibérica alberga grande parte da diversidade genética da espécie”, explica Hugo Rebelo.

O investigador da Universidade do Porto avisa, por isso, que “os resultados obtidos não vêm senão realçar a responsabilidade de Portugal e Espanha na preservação da biodiversidade no contexto europeu. De acordo com as alterações climáticas previstas, será desta região que indivíduos adaptados às novas condições climáticas poderão migrar para norte e manter a viabilidade das populações no resto da Europa”.