Doença que atinge os coelhos ameaça outras espécies ibéricas

Lince-ibérico (Lynx pardinus). Créditos: Alfonso Moreno.

Lince-ibérico (Lynx pardinus). (Foto: Alfonso Moreno)

Uma equipa internacional coordenada por investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO-InBIO) demonstrou, num estudo publicado pela prestigiada revista científica Scientific Reports (grupo Nature), que a nova variante do vírus da Doença Hemorrágica Viral (DHV) do coelho pode comprometer a conservação das populações de lince-ibérico e águia-imperial na Península Ibérica.

Neste estudo, a equipa internacional liderada pelo investigador do CIBIO-InBIO Pedro Monterroso e constituída por investigadores das áreas da ecologia, biologia da conservação e da virologia, e por técnicos de Órgãos Governamentais de Portugal e de Espanha e de Organizações Não-Governamentais de Ambiente de Espanha, concertou esforços para avaliar os efeitos reais da nova variante da DHV do coelho-bravo na conservação dos ecossistemas ibéricos. No final, identificaram um decréscimo anual na ordem dos 20% nas populações naturais de coelho-bravo, causado por surtos desta nova variante vírica altamente contagiosa e detetada em França em 2010, tendo atingido Espanha em 2011 e Portugal em 2012.

 Águia-imperial-ibérica (Aquila adalerti). Créditos: Carlos Pacheco.

Águia-imperial-ibérica (Aquila adalerti). (Foto: Carlos Pacheco)

“Esta nova variante difere das estirpes que circulavam na Península Ibérica até 2011 por ser geneticamente muito distinta e afetar coelhos jovens (menos de dois meses de idade), o que dificulta a renovação das populações. A maioria dos coelhos encontrados mortos no campo e analisados neste estudo eram positivos para a nova variante, sendo que mais de 50% eram animais com menos de 6 meses. Os dados recolhidos sugerem que a nova variante da DHV é a principal causa de mortalidade nas populações naturais de coelho-bravo e confirmaram a susceptibilidade dos animais jovens à doença”, referem Pedro Esteves e Joana Abrantes, membros do CIBIO-InBIO e co-autores do artigo.

Segundo os cientistas, o drástico decréscimo das populações naturais de coelho-bravo está diretamente associado à diminuição do número de indivíduos reprodutores e de crias de lince-ibérico (na serra de Andújar, em Espanha) e águia-imperial (na região do vale do Guadiana, em Portugal),  cujo principal alimento é precisamente o coelho-bravo. “Na ausência de alimento, estas espécies vão reduzir os gastos de energia com funções não vitais, nomeadamente com a reprodução”, salienta Pedro Monterroso.

O decréscimo nas populações de coelho-bravo não parece dar sinais de se reverter, o que, para os investigadores, coloca sérias preocupações para a conservação do lince-ibérico e águia-imperial-ibérica, mas também para outras espécies. “Uma vez que as espécies estão todas ligadas entre si em redes tróficas, a diminuição dos predadores de topo como o lince-ibérico conduzem a um aumento de predadores generalistas como a raposa e o sacarrabos, capazes de causar um efeito ainda maior na supressão do coelho-bravo, perpetuando ainda mais os efeitos da DHV” explica Pedro Monterroso.

Note-se que a posição de predadores de topo do lince-ibérico e da águia-imperial-ibérica significa que não têm predadores naturais. Para além disso, esta posição trófica permite o controlo de outras espécies mais pequenas de predadores (designadas como mesopredadores), pela sua supressão ou exclusão das zonas mais favoráveis. Este efeito tem consequências benéficas para as populações de coelho-bravo, uma vez que o total de animais consumidos por predadores, nos locais onde existe lince-ibérico e águia-imperial, é inferior ao consumido em locais onde estes predadores de topo não existem. Assim, estes dois predadores, pela posição que ocupam, são peças fundamentais na manutenção da estabilidade dos ecossistemas e na regulação das populações de outras espécies.

Estes resultados reforçam a necessidade de concertar esforços para assegurar a preservação da vida selvagem, uma vez que a eficiente conservação dos ecossistemas apenas é conseguida através de fortes colaborações pessoais e institucionais, tanto a nível nacional como a nível internacional.