Nuno Cruz

Investigador do INESC TEC há nove anos e Professor Auxiliar na FEUP, Nuno Cruz “brinca” com robôs há mais de duas décadas. Os barcos autónomos Zarco e Gama e os submarinos autónomos Mares e Trimares são algumas das suas invenções, cuja autoria partilha com os colegas.

É ele o responsável pela única equipa portuguesa entre os 9 finalistas da exigente competição mundial de exploração do fundo do mar Shell Ocean Discovery XPrize. Uma proeza alcançada com um um projeto que se propõe combinar diferentes plataformas robóticas marinhas (o submarino autónomo para águas profundas “DART” e o barco autónomo “ROAZ”) para traçar uma solução eficaz e eficiente para a exploração do fundo do mar.

Estar entre os finalistas da competição significa partilhar um prémio de 1 milhão de dólares, um maior destaque entre a comunidade robótica e “demonstra o papel crescente que o INESC TEC tem tido na robótica a nível internacional”, garante Nuno Cruz, que não tem dúvidas em afirmar que a “robótica marinha em Portugal está ao nível da robótica dos melhores do mundo”. Mesmo que isso signifique muitas vezes ter de fazer “várias omeletes com um só ovo”, que é como quem diz, trabalhar a robótica marinha no nosso país obriga a um rasgo extra de criatividade.

Lançada há mais de dois anos com o objetivo de promover o desenvolvimento de novas tecnologias e soluções avançadas para a exploração e mapeamento do fundo do mar, a Shell Ocean Discovery XPrize entra agora na fase final. As nove equipas em jogo vão enfrentar no último trimestre deste ano uma nova série de testes e o vencedor será apurado em dezembro de 2018. Nessa altura se saberá se cabe à equipa liderada por Nuno Cruz a vitória nesta importante competição internacional.

Naturalidade? São Nicolau, Porto.

Idade? 47 anos.

– De que mais gosta na Universidade do Porto?

Das pessoas, desde os alunos aos docentes e restantes funcionários. Pela energia que põem nas causas, pelo orgulho que têm em pertencer à comunidade, pelo que têm de conhecimento e de vontade de o partilhar.

– De que menos gosta na Universidade do Porto?

Das distâncias. Não só entre os vários polos da U.Porto, como também de um certo distanciamento entre a Universidade e o resto da sociedade.

– Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto?

Criar eventos que aproximem pessoas, fomentando ações entre unidades orgânicas e que promovam também o envolvimento da cidade/região. Os exemplos de sucesso com a sociedade envolvente (por exemplo, os novos Museus, a Mostra da U.Porto ou a Universidade Júnior), demonstram a necessidade destas ações.

– Como prefere passar os tempos livres?

Gosto de muitas coisas: de passear em família, viajar e conhecer novos locais e culturas; de ficar em casa a fazer jardinagem ou bricolage; de fazer desporto.

 – Um livro preferido?

“The Road”, de Cormac McCarthy.

 – Um disco/músico preferido?

Para ver e ouvir: Muse, ao vivo. Só para ouvir: Thom Yorke.

– Um prato preferido?

Adoro comer, só em Portugal há tanta escolha que é impossível escolher só um prato… De norte para sul: Papas de sarrabulho, posta à mirandesa, francesinha, leitão à Bairrada, açorda de gambas. Nas sobremesas, a lista é ainda maior!

– Um filme preferido?

“A Vida é Bela”, de Roberto Benigni.

– Uma viagem de sonho (realizada ou por realizar)? 

Patagónia, no Chile e Argentina, por realizar.

– Um objetivo de vida?

Só um?!… Talvez a aprendizagem contínua, parece-me ser aquele que tem impacto em todos os outros.

– Uma inspiração? (pessoa, livro, situação…)

Leonardo da Vinci, com uma capacidade inventiva extraordinária.

– O que é que podemos ganhar com um melhor conhecimento do mar profundo?

Durante muitos anos pensou-se que o mar profundo era um “deserto submarino” e foi dada pouca importância ao seu conhecimento. De facto, hoje conhece-se muito melhor a superfície lunar ou de Marte do que 90% dos nossos fundos marinhos. No entanto, o acesso ao mar profundo tem proporcionado descobertas fabulosas, desde logo ao nível de recursos minerais, com elevado potencial económico, mas sobretudo na biologia. É impressionante o número de novas espécies descobertas em cada expedição e muitas das formas de vida encontradas ultrapassam as melhores criações da ficção! Por outro lado, os cientistas têm ficado surpreendidos pela maneira como enormes comunidades de seres vivos prosperam em ambientes extremamente hostis, em completa ausência de luz solar. Isto tem feito repensar muitos dos modelos pré-concebidos, permitindo extrapolar novas possibilidades de vida, incluindo noutros planetas, e antecipar com otimismo a importância de novas descobertas!

– Chegar à final de uma competição como o Shell Ocean Discovery XPrize é a prova de que a robótica marinha que se desenvolve em Portugal está ao nível dos países mais avançados?

Do ponto de vista científico, não tenho dúvidas e há várias provas disso: por um lado temos participado com sucesso em diversos projetos internacionais com instituições de topo, por outro há vários investigadores portugueses a ocuparem lugares de relevo na comunidade robótica. No entanto, a robótica marinha é particularmente dispendiosa e a nossa crónica falta de recursos torna a luta extremamente desigual. No caso desta competição, é preciso bastante criatividade para ultrapassar os desafios apresentados, ou seja encontrar as chamadas soluções “fora da caixa”. É claro que os recursos materiais ajudam a acelerar o processo, mas curiosamente até acho que neste caso temos alguma vantagem competitiva, porque nós portugueses já estamos habituados a ser criativos para fazer várias omeletes com um só ovo…