Conceição Calhau

Conceição Calhau (Pessoa)Nutricionista, professora universitária e investigadora nas áreas da Bioquímica, da Nutrição e da Toxicologia Alimentar, Conceição Calhau é uma das vozes nacionais que vem alertando publicamente para a necessidade de evitar consumir alimentos embalados em plástico, de preferir água em garrafas de vidro e de pôr de parte os biberons “modernos”, substituindo-os pelos mais tradicionais. Em causa está a exposição a poluentes orgânicos que ingerimos com os alimentos.

Esta é uma das principais áreas de interesse da docente do Departamento de Bioquímica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), como revelam duas publicações recentes – uma no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism e outra no Environmental Research – que atestam o impacto dos xenoestrogénios (estrogénios estranhos ao organismo, exemplos, dioxinas, pesticidas, organoclorados, aditivos do plástico, etc.) na doença metabólica.

No total, a professora da FMUP é autora mais de 100 publicações indexadas no ISI, abrangendo outras temáticas como o estudo dos polifenóis e a disfunção metabólica. Também tem integrado diversos projetos de investigação financiados sobretudo pelo governo português e envolvendo a indústria agroalimentar. Atualmente coordena o grupo de investigação ProNutri do CINTESIS, responsável por projetos como o IoGeneration e o The Effect of Wheat Germ on Gastrointestinal Discomfort, Blood Cholesterol and Postprandial Glycaemic Response.

Licenciada em Ciências da Nutrição pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP), Conceição Calhau doutorou-se em Biologia Humana em 2002 na FMUP, onde tem ensinado nas áreas da Bioquímica, Nutrição e Toxicologia Alimentar. A Agregação em Metabolismo Clínica e Experimentação foi um marco alcançado em 2010.

Mas não é só na Academia que a docente universitária se destaca. Especialista em Metabolismo, é coordenadora do grupo de Nutrição na rede nacional de ensaios clínicos PtCRIN, preside à Comissão de inovação e tecnologia alimentar da Associação Portuguesa dos Nutricionistas e está a iniciar funções como presidente do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Nutricionistas, cargo que deverá manter até 2019.

Naturalidade?

São João da Madeira.

 Idade?

42 anos.

– De que mais gosta na Universidade do Porto?

Das pessoas. Da qualidade científica e da sua capacidade de produzir trabalho. É um meio muito fértil.

– De que menos gosta na Universidade do Porto?

Incoerências institucionais, quer ao nível de ensino quer ao nível da investigação. Questões que devem ser revistas e resolvidas com urgência para se avançar na sua robustez e confiança de todos nós.

– Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto?

Na área da saúde, aquela que posso conhecer um pouco mais, precisa de mais estratégia na obtenção de fundos para a investigação (e não só). Isto implica que as estruturas de investigação, com sede nas faculdades ou fora delas, sejam repensadas. A dualidade de funcionalidades/critérios fratura instituições.

Se a Universidade deve ter união, não pode ter critérios díspares de funcionamento, de metas ou regras de avaliação de docentes. Os critérios diferentes de progressão na carreira docente não pode, nem deve, acontecer numa universidade.

Atrevo-me ainda, a acrescentar, que em matéria de licenciatura em Ciências da Nutrição, uma mais-valia desta Universidade, há ainda a trabalhar muito do seu potencial.

– Como prefere passar os tempos livres?

Ouvir música e passear ao ar livre com as minhas filhas.

– Um livro preferido?

Cidadela (Antoine de Saint-Exupéry).

– Um disco/músico preferido?

O músico Sting é dos preferidos.

– Um prato preferido?

Difícil. Tenho alguns …mas tripas à moda do Porto é um dos eleitos.

– Um filme preferido?

Marley & Eu.

– Uma viagem de sonho (realizada ou por realizar)?

Qualquer destino que tenha sol, mar e muito sossego.

– Um objetivo de vida?

Fazer os outros felizes.

1- Uma inspiração? (pessoa, livro, situação…)

Agostinho da Silva foi e será sempre uma inspiração pela sua simplicidade de pensamento e ilimitada sabedoria.

– O que falta fazer no âmbito da (investigação em) Nutrição em Portugal?

Ainda muito. Esta é no presente uma preocupação da Ordem dos Nutricionistas, que criou um grupo de trabalho dedicado a esta matéria. Precisamos criar mais identidade, estratégias de investigação, prioridades.

Não avançando muito mais, basta pensar em dois factos que justificam esta minha resposta.

Um, a situação da saúde no nosso país. Temos números preocupantes de prevalência e incidência de doenças relacionadas com alimentação inadequada. Dois, olhando para os números de publicações internacionais em revistas médicas sobre alimentação percebe-se a pertinência da temática em relação à investigação científica.

Exposto isto, muito há para fazer na investigação em matéria de obtenção de dados nacionais para definição de estratégias concretas e adaptadas ao nosso cenário. Dedicar mais investigação em alimentação e nutrição humanas focadas na realidade do nosso país, na resolução dos nossos problemas. Concretizando, ajudando decisores políticos, produzindo dados, por exemplo, para capacitar a indústria agroalimentar, tornando-a mais competitiva e com produção/disponibilização de alimentos de maior qualidade alimentar.

E, por último, a minha mais recente (pre)ocupação, vai para as questões éticas da investigação clínica na área da alimentação e nutrição.

Em resumo, em Portugal precisamos de tornarmo-nos mais assertivos e fortes.