No ano em que se celebra o centenário do nascimento de José Saramago (1922 – 2010), Agostinho Santos cumpre uma promessa feita ao Prémio Nobel da Literatura e inaugura, nas Galerias I e II da Casa Comum, ao edifício histórico da Reitoria da U.Porto, uma exposição com pintura, escultura, desenho e livros de artista. São mais de cem obras, quase todas  – com a exceção de oito esculturas – realizadas entre 2019 e 2021 e expostas agora pela primeira vez.

Ver Cegueira Adentro – 100 Anos de José Saramago, para conhecer a partir das 18h00 do próximo dia 21 de abril. A sessão de inauguração, que contará com a presença da filha do Prémio Nobel da Literatura e incluirá o lançamento de três publicações da U.Porto Press.

A arte serve para desinquietar pessoas

Agostinho Santos foi jornalista durante muitos anos (principalmente no Jornal de Notícias) e sabe que não seria o pintor que é se não tivesse sido o jornalista que foi. Fazer jornalismo de investigação era a sua paixão, principalmente na área das questões sociais. “Há 15 anos, as pessoas quando tinham problemas, iam bater à porta do JN“. E se durante o dia falava com pessoas que tinham perdido o emprego, com famílias que não tinham como alimentar os filhos, à noite, quando chegava ao atelier, o dia não podia ficar lá fora. “Comecei a pintar homens e mulheres inquietos. Aflitos.”

A partir de uma determinada altura, os livros de José Saramago, como o Memorial do Convento ou o Ensaio sobre a Cegueira passam, efetivamente a entrar no processo de criação artística e, no fundo, “a esculpir a obra”, tendo por base, claro, a sua “interpretação” dos livros. É desta forma que se faz uma “obra de intervenção social”, invocando-se questões como “as desigualdades ou a crise dos refugiados”.  A arte, acrescenta, “pode ser uma arma, servir para denunciar o que está mal. Para mexer com as consciências. Para desinquietar pessoas!”

Valter Hugo Mãe, escritor e curador da exposição diz-nos Agostinho Santos é um artista implicado nas causas sociais e muito identificado com o “protesto humanista” que reconhecia no Prémio Nobel.

Agostinho Santos, “Moleskine escuro”.

Promessa cumprida

Foi por volta de 2005, a propósito de outra exposição, que José Saramago visitou Agostinho Santos, no seu atelier, em Gaia, e como resultado dessa visita o artista prometeu reler a obra do Prémio Nobre para mais tarde, com outra maturidade, voltar a trabalhar os temas que a ambos tanto tocavam.

“Para além de ser um grande escritor, ele era um homem que se preocupava com os outros. Era um homem desassossegado. E a função da arte é provocar, é incitar. No fundo, o que eu fiz, no jornalismo”, explica o artitsta.

Relido o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira, o Ensaio sobre a Lucidez, Caim, O Evangelho segundo Jesus Cristo e As Intermitências da Morte, o trabalho está feito e pronto para ser agora apresentado: Ver Cegueira Adentro – 100 Anos de José Saramago. E assim se cumpre também uma promessa.

Como nos diz o também escritor Valter Hugo Mãe, “o encontro de Agostinho com Saramago aconteceu em franco entusiasmo, mas deixou o repto para que os livros sobre os quais o pintor não se debruçara viessem a merecer ainda essa interpretação. Esta exposição é uma resposta de Agostinho ao pedido que Saramago lhe fez. Prossegue a transformação dos livros em imagens, segundo a imaginação indomável de Agostinho. Modo de agora festejar os cem anos de Saramago, um mestre e um amigo comum”.

A intervenção social e o foco humanista que os une

O fascínio por José Saramago já tem mais de 20 anos. O trabalho de mestrado de Agostinho Santos em Pintura, na Faculdade de Belas Artes da U.Porto (FBAUP), em 2012, chama-se Palavra / Imagem; desenvolvimentos pictóricos a partir da escrita de José Saramago.  No livro José Saramago segundo Agostinho Santos, com pinturas de Agostinho Santos produzidas a partir da obra de José Saramago, lançado em 2007, o Nobel da Literatura afirmou que “Agostinho Santos será talvez o artista que melhor encarna esta relação pouco comum com a operação de pintar”.

José Saramago considerou que “há algo de frondoso e vegetal na arte de Agostinho Santos”. Vê ainda “algo também de primitivo e fetal, formas que se estão preparando para nascer ou que ao nascimento parecem haver renunciado, um mundo em suspensão, à beira de uma definição, como aguardando a palavra ordenadora, sem cessar anunciada, e constantemente adiada. (…)” Talvez seja mesmo esta capacidade de Ver Cegueira Adentro, atirando-nos para o primitivo e o fetal. Para a fase anterior ao nascimento.

Agostinho Santos, “Moleskine cores”

 

Valter Hugo Mãe identifica no percurso de José Saramago “um forte sentido do improvável e uma “atenção à expressão popular, fazendo de certa fala ‘sem escola’ a pedra de toque de um estilo que se impõe à arte e à academia. Saramago, cuja obra se define algo tardiamente, universaliza a questão portuguesa e prima pelo importante foco humanista que critica a contemporaneidade e suas demagogias”.

Na obra de Agostinho Santos, o curador encontra “insubmissão” e “um frontal exercício de cidadania”. Reconhece um interesse em “cortar amarras e reencontrar a linguagem espontânea dos que obedecem apenas à sua própria natureza”. É um artista “empenhado na defesa de causas essenciais para a consciência mais atenta dos nossos dias”. E com uma obra sempre “ao serviço de suas convicções, coloca-o claramente na esteira do que foi sempre o gesto de Saramago. Ambos inscrevem a multidão nos seus discursos, essa dos oprimidos ou esquecidos, dos que são preteridos ou adiados”.

Lançamentos da U.Porto Press

Na sessão de abertura da exposição, serão lançados pela U.Porto Press dois livros de artista de Agostinho SantosOutra Vez a Sonhar e Querida Blimunda –, bem como o livro Ver Cegueira Adentro, que documenta a exposição.

Para Fátima Vieira, Vice-Reitora para a Cultura, “através destas publicações, os visitantes da exposição poderão levar um pouco da inquietude de Agostinho Santos para casa. As obras de Agostinho têm este efeito magnético em nós: espantam-nos – chocam-nos, quase, num primeiro momento – , mas depois de compreendermos as suas chaves de leitura interpelam-nos constantemente”.

O livro Ver Cegueira Adentro, inserido na Coleção Atelier da U.Porto Press, para além de dar conta das obras expostas, apresenta textos de Pilar del Río, João Tordo, José Rui Teixeira, Maria de Lourdes Pereira e Valter Hugo Mãe. “São textos de uma grande sensibilidade estética” – sublinha Fátima Vieira – “que iluminam o universo fantástico que Agostinho Santos construiu e onde força o encontro de personagens que habitam diferentes livros de Saramago.

Estas publicações estarão à venda no dia da inauguração com 10% sobre o preço de capa. Poderão ser a partir desse dia adquiridas online, no site da U.Porto Press.

Agostinho Santos, “Ver Cegueira Adentro – 100 Anos de José Saramago”

Sobre Agostinho Santos

Agostinho Santos (Vila Nova de Gaia, 1960) é pintor, curador, escritor e jornalista. Conta com mais de cem exposições individuais e participou em inúmeras coletivas. Foi diversas vezes premiado e tem vários livros editados. Mereceu artigos e ensaios da autoria de figuras como Agustina Bessa-Luís, Fernando Pernes, Eduarda Chiote, José Saramago, Rui Lage, Mário Cláudio, Rosa Alice Branco, entre muitos outros.

Doutorado em Museologia pela Faculdade de Letras e pela FBAUP, é também mestre em Pintura pela FBAUP. É doutorando em Arte Contemporânea no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra.

Agostinho Santos é diretor da Bienal Internacional de Arte de Gaia, coordenador do Projeto Onda Bienal, Presidente de Artistas de Gaia – Cooperativa Cultural e mentor do projeto Museu de Causas / Coleções Agostinho Santos.

Ver Cegueira Adentro – 100 Anos de José Saramago vai estar patente de 21 de abril a 2 de julho de 2022. Com entrada livre, a exposição pode ser visitada de segunda a sexta-feira, das 10h00 às 13h00 e das 14h30 às 17h30, e ao sábado, das 15h00 às 18h00.

Em paralelo com a exposição será também lançado um catálogo, com texto de vários autores, entre os quais Pilar del Río, e dois livros de autor, da coleção Concertina, da editora da U.Porto, a U.Porto Press.