Uma nova geração de alimentos para peixes, um método inovador para aumentar a eficiência dos painéis solares, um “kit” para diagnosticar a depressão, uma tecnologia para melhorar a reabilitação oral e uma prótese “inteligente” para pessoas que perderam os dentes. As cinco ideias nasceram nos laboratórios da Universidade do Porto e, ao longo dos próximos meses, vão poder continuar a crescer com a ajuda do Business Ignition Programme (BIP) PROOF, o programa da U.Porto que tem como objetivo apoiar projetos de investigação inovadores em curso na instituição.

Os cinco projetos vencedoresPROAQUA, PerovSiPort, MyRNA, PRO-FUSE e NeuROP – foram selecionados de um total de 38 candidaturas apresentadas à U.Porto Inovação. A avaliação foi conduzida pela consultora J. Pereira da Cruz e envolveu membros da Portugal Ventures e de empresas spin-off da U.Porto.

No total, a edição 2021/2022 do programa BIP Proof vai atribuir 50 mil euros (10 mil a cada projeto), com o apoio da Fundação Amadeu Dias e do Santander Universidades. Um montante que vai poder ser aplicado pelas equipas no desenvolvimento de provas de conceito para validação da sua investigação.

Uma refeição mais saudável para peixes

Entre as inovações premiadas este ano inclui-se o PROAQUA, um projeto coordenado pela investigadora Paula Enes, do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto (CIIMAR-UP), e que visa o desenvolvimento de uma nova geração de probióticos compostos por bactérias intestinais, para incorporar em rações de aquacultura.

O uso destes probióticos é inovador na medida em que permite superar os efeitos negativos da quitina, uma substância presente nas farinhas de inseto (recentemente autorizadas na UE e mais nutritivas e sustentáveis do que as tradicionais farinhas de peixe) , mas que interfere negativamente no crescimento dos peixes. Para além de serem benéficas para a saúde e bem-estar do peixe, as bactérias intestinais cumprem os requisitos mínimos de segurança para serem elegíveis como probióticos pela Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar.

Para serem usados na indústria da aquacultura e patenteados, estes probióticos têm, contudo, de ser validados. O apoio BIP PROOF permitirá à equipa do PROAQUA a realização de ensaios in vivo com o robalo europeu, a fim de comprovar a eficácia dos probióticos na melhoria da utilização das farinhas de inseto pelos peixes e na resistência a doenças, dois obstáculos ao desenvolvimento sustentável da indústria da aquacultura.

O projeto PROAQUA  é coordenado por Paula Enes, professora auxiliar na Faculdade de Ciências e investigadora auxiliar no CIIMAR. (Foto: CIIMAR)

Aumentar a eficiência energética

Outro dos premiados é o PerovSiPort, um projeto liderado por investigadores da Faculdade de Engenharia (FEUP) e que propõe a “produção de células solares de perovskita sustentáveis a longo prazo, aliando os métodos de produção e design mais avançados ao uso de materiais inovadores”.

Na prática, a equipa liderada pelo investigador Seyedali Emami – e que inclui ainda a participação dos estudantes de doutoramento Jorge Martins, Marta Pereira, Eliana Loureiro e Rúben Madureira – pretende desenvolver um mecanismo inovador capaz de simplificar a montagem e aumentar a eficiência de conversão de energia, integrando as células solares fotovoltaicas de perovskita nos painéis de células solares de silício comuns no mercado.

Com o apoio do BIP PROOF, os investigadores poderão desenvolver um protótipo, submeter a patente que protegerá o design e atrair o interesse de outras instituições de I&D e indústrias de energia fotovoltaica.

A equipa da FEUP quer desenvolver a produção de células solares de perovskita sustentáveis a longo prazo. (Foto: DR)

Um “kit” contra a depressão

Da reunião de forças entre o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da U.Porto (i3S) e o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) resulta por sua vez o MyRNA Diagnostics, projeto que tem por objetivo desenvolver um kit de biomarcadores moleculares para diagnóstico e monitorização da depressão, doença que constitui atualmente um dos principais problemas de saúde pública e causas de incapacidade a nível mundial.

Vencedor dos Prémios «O Melhor do Portugal Tecnológico» 2018, na categoria Inovação, e do concurso BfK IDEAS 2017, o MyRNA DIagnostics está a ser desenvolvido pelos investigadores Maria Inês Almeida (ICBAS/i3S), Susana Santos (i3S) e João Brás (i3S), encontrando-se em implementação no grupo Microenvironments for New Therapies do i3S, liderado por Mário Barbosa (ICBAS/i3S. Envolvidos estiveram também médicos psiquiatras e vários hospitais da região norte, incluindo o Centro Hospitalar Universitário São João, o Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa e o Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia /Espinho.

Com o apoio BIP PROOF, a equipa pretende agora avançar com uma validação clínica mais alargada dos biomarcadores para depressão, tornando os testes mais específicos e sensíveis. Para além de permitir a otimização e demonstração da atividade e eficácia da tecnologia, este passo pode abrir as portar ao desenvolvimento de um produto para o mercado.

João Bras, Maria Inês Almeida, Susana Santos e Mário Barbosa integram a equipa responsável pelo projeto MyRNA. (Foto: DR)

Inovar pela Saúde Oral

Os restantes projetos financiados pela edição deste ano do BIP PROOF apresentam tecnologias inovadoras no domínio da saúde oral. É o caso da que está ser desenvolvida no âmbito do projeto PRO-FUSE, direcioando para a resposta às dificuldades na reabilitação oral com implantes dentários de pacientes com perda óssea vertical acentuada.

A tecnologia desenvolvida, e já patenteada, permitirá colmatar o risco de insucesso na reabilitação oral através da inclusão de um fusível mecânico nas próteses dentárias aparafusadas a implantes curtos. O trabalho foi desenvolvido no âmbito do Programa Doutoral em Engenharia Biomédica da FEUP, por Ana Reis (gestora do projeto) e pelo médico dentista José Ferreira (inventor).

O apoio concedido pelo BIP PROOF vai facilitar a criação de um modelo aperfeiçoado com base nos modelos já testados, com características anatómicas. Este modelo será fabricado e alvo de ensaios mecânicos, que levarão à avaliação da necessidade de ensaios clínicos com o Infarmed. A equipa prepara-se ainda para desenvolver protótipos anatómicos que permitirão a realização de testes em ambiente clínico, imprescindíveis para a entrada do produto no mercado.

Ilustração do modelo desenvolvido pelo projeto PRO-FUSE. (Imagem: DR)

Uma prótese inteligente

Também no âmbito da saúde oral, o projeto NeuROP pretende validar o protótipo de uma prótese inteligente criada para devolver a função sensorial oral a pessoas que perderam os seus dentes. A sua eficácia assenta num sistema neuroestimulador que transforma forças de oclusão mecânicas em estímulos elétricos que serão aplicados a terminações nervosas.

O projeto conta com a participação de investigadores da FEUP e da Faculdade de Desporto da U.Porto (FADEUP), assim como do Instituto Português de Oncologia do Porto Francisco Gentil.

O objetivo do consórcio é implementar a prótese inteligente e realizar testes com voluntários para avaliar as melhorias que podem ser alcançadas na postura e controlo da mastigação.

Protótipo da prótese inteligente NeuROP. (Imagem: DR)

Sobre o BIP Proof

Lançado em 2018 com o propósito de apoiar e dinamizar a investigação aplicada com potencial comercial que é realizada na Universidade do Porto, o BIP PROOF premiou nas edições anteriores um total de 22 ideias inovadoras com 260 mil euros.

Na primeira edição, que aconteceu no âmbito do projeto U.Norte Inova, seis projetos partilharam um total de 120 mil euros para impulsionar provas de conceito. Ainda nesse ano, a Fundação Amadeu Dias (FAD) passou a ser o apoio principal da iniciativa, e outras quatro ideias inovadoras receberam 10 mil euros cada umaa.

Em 2019, e repetindo a fórmula de sucesso com a FAD, quatro projetos de investigação receberam um financiamento de 40 mil euros. Já em 2020, o Santander Universidades juntou-se como patrocinador de uma edição que culminou na distribuição de 60 mil euros por seis projetos distinguidos.

Para além de manter os patrocinadores, a edição deste ano do BIP PROOF contou também com o apoio da J. Pereira da Cruz, uma empresa especializada em Propriedade Intelectual, e pelo Spin UP, projeto orientado para o aumento da transferência de tecnologia para o mercado no Norte de Portugal e Espanha, cofinanciado pelo FEDER – Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, através do Programa de Cooperação Transfronteiriça INTERREG V A Espanha-Portugal 2014-2020 (POCTEP).