Marco Alves

Networker e workaholic assumido, Marco Alves faz desta forma de estar o motor da investigação que vem produzindo, em grande ritmo, ao longo dos últimos anos. Membro da Unidade Multidisciplinar em Investigação Biomédica (UMIB) do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto, recebeu em 2017 o Prémio “Nuno Castel Branco” da Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD) e fez parte da equipa que, em setembro, recebeu a Bolsa de Investigação 2017 da Associação Portuguesa de Urologia (APU). Recentemente, submeteu um pedido de patente e publicou em duas das revistas mais conceituadas da área da Reprodução Humana (Human Reproduction Update) e Endocrinologia e Metabolismo (Trends Endocrinology and Metabolism).

Licenciado em Biologia pela Universidade do Aveiro, Marco Alves é doutorado em Bioquímica pela Universidade de Coimbra, Cientista Convidado na Universidade de Bari (Italia) e, desde novembro de 2016, Investigador FCT no ICBAS, onde trabalha nas áreas do Metabolismo, Bioquímica, Biologia Celular e Andrologia. Um percurso “saltimbanco” que, com apenas 35 anos, lhe permitiu ganhar “independência cientifica” e contribuiu fortemente para o seu crescimento pessoal e humano, e sobretudo, profissional. A outra face da moeda é que “foi impossível fixar-me e sentir-me verdadeiramente em casa. Quem chega de fora é, muitas vezes, hostilizado desnecessariamente e sem motivo aparente”.

Não é isso que tem acontecido na U.Porto. Embora com pouca experiência letiva, afirma tirar prazer e conseguir cativar vários alunos para trabalhar com ele. Prova disso é que neste momento (co)orienta dois investigadores bolseiros em pós-doutoramento, oito estudantes de doutoramento com bolsa e três técnicos bolseiros de investigação. É igualmente coautor de mais de uma centena de artigos científicos, publicados nos últimos cinco anos.

Marco Alves venceu o prémio da SPD pelo trabalho “Biomarcadores transgeracionais da Diabetes Mellitus tipo 2: ficção ou necessidade de ação?”, no qual debate o papel que o estilo de vida tem no desenvolvimento da DMT2 e outras co-morbidades associadas. Neste trabalho lançam-se ainda as bases para o estudo dos possíveis mecanismos moleculares adjacentes ao papel que a diabetes tipo 2 no pai pode ter na descendência, particularmente na suscetibilidade destes à doença.

Há muito se sabe que a hiperglicemia na mulher durante a gravidez ou lactação representa um risco para a reprogramação metabólica da descendência, que pode culminar no desenvolvimento de obesidade ou DMT2. No entanto, apenas recentemente surgiram as primeiras evidências de que o perfil metabólico do pai na conceção influencia de forma decisiva a descendência, sendo que pais com níveis de glicemia elevados e/ou com excesso de peso têm maior probabilidade de terem filhos com DMT2 e obesos. Com este projeto, o investigador pretende identificar alguns desses mecanismos moleculares  responsáveis pela transmissão hereditária da propensão para desenvolver DMT2, o que poderá permitir a identificação de biomarcadores transgeracionais da DMT2 no material genético do espermatozóide, o que seria um avanço científico relevante e com aplicabilidade imediata.

– Naturalidade? Arcos, Anadia, distrito de Aveiro.

– Idade? 35 anos

– De que mais gosta na Universidade do Porto?

Gosto da qualidade e da organização. As estruturas estão bem definidas e há uma preocupação com a Instituição, para lá dos interesses políticos e pessoais.

De que menos gosta na Universidade do Porto?

Da falta de estímulo à investigação. Todas as grandes universidades do mundo se preocupam em manter nos seus quadros os melhores investigadores e lhes proporcionar condições para produzir conhecimento de qualidade. Há barreiras na U.Porto que precisam ser derrubadas.

– Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto?

Várias. Diria que o modelo de contratações necessita ser revisto assim como a gestão de recursos. É preciso pensar se a Universidade está a conseguir manter os melhores em cada área e de que modo isso influencia a médio prazo a qualidade da instituição. A valorização profissional deveria começar de dentro da instituição para fora.

– Como prefere passar os tempos livres?

Workaholic por opção, tenho poucos tempos livres mas gosto de viajar, ler e escrever. Sou um ermita por natureza, saio pouco, mas aprecio estar com as pessoas de quem gosto.

– Um livro preferido?

Leio muito. Adoro Saramago, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Mia Couto, e claro Fernando Pessoa. Destaco o Livro do Desassossego, que sempre me deixa inquieto.

– Um disco/músico preferido?

Maria Bethania, Milton Nascimento, Gal Costa, Mônica Salmaso, Chico Buarque e MPB em geral. Um show de Bethânia é um luxo auditivo.

– Um prato preferido?

Sou apreciador de comida mas de gostos simples. Um bom frango assado, carne de porco à alentejana ou costeleta mendinha. Doces são a minha perdição: sericaia, pao-de-ló, bolo chocolate.

– Um filme preferido?

Gosto de vários mas posso destacar o “The Doubt” de John Patrick Shanley. A (in)justiça sempre é algo que me inquieta.

Uma viagem de sonho?

Cabo Verde. Mochila às costas e uma experiência só com locais. Voltarei sempre que possível. Adoro viajar.

– Um objetivo de vida?

Fazer muitas pessoas felizes. Olhar para trás e poder dizer que fiz o melhor que podia.

– Uma inspiração?

As crianças motivam-me para dar de mim o melhor que consigo. Os meus sobrinhos confortam-me. E o Pedro é um modelo a seguir. Inspira-me a integridade e a inteligência.

– O projeto da sua vida?

A minha vida é um projeto inacabado, mas adorava chegar ao fim e dizer: trabalhei para tudo o que consegui, e fui um self-made man, sem precisar de padrinhos ou sem me aproveitar de nada nem de ninguém.

Uma ideia para promover uma maior ligação entre a Universidade e a comunidade?

É necessário um apoio maior a iniciativas que passam por abrir os espaços e eventos á comunidade. A título de exemplo, os eventos científicos deveriam ter sempre, em qualquer momento, uma oportunidade para a comunidade se manifestar e ouvir. Os gabinetes de comunicação precisam estar mais próximos dos investigadores e docentes para liderar essa ligação entre a Universidade e a Comunidade.