Muitos têm sido os investigadores da Universidade do Porto que, neste período excecional, têm colocado as suas qualidades excecionais ao serviço da comunidade. Luísa Pereira é um deles. Líder do grupo de investigação em Diversidade Genética do Instituto de investigação e Inovação em Saúde (i3S), esta especialista em Genética Populacional Humana é um dos rostos por detrás de vários dos projetos que ali têm surgido no âmbito do combate à Covid-19.

Licenciada em Biologia pela Faculdade de Ciências da U.Porto (1995), foi também na FCUP que Luísa Pereira concluiu o Mestrado e o Doutoramento na área da Genética Humana Aplicada. O percurso pós-graduado foi complementado por várias estadias curtas em diversas universidades da Europa (Ferrara, em Itália, Oxford e Glasgow, no Reino Unido, Santiago de Compostela, em Espanha) e Estados Unidos da América (Virginia Tech e Nashville).

Foi ainda no doutoramento que o destino de Luísa se cruzou com o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da U.Porto (Ipatimup) – atualmente integrado o i3S -, onde é investigadora desde 2004, e líder de grupo desde 2006. Ali, tem centrado a sua investigação em diversidade genética humana na Europa, África, Península Arábica, América e Ásia com o objetivo de inferir o passado e a evolução das populações humanas. Nos últimos sete anos, tem vindo a relacionar esta diversidade com a suscetibilidade heterogénea das populações a doenças complexas, nomeadamente o cancro, focando-se em tipos de cancro mais frequentes em África, e doenças infeciosas (febre da dengue).

Co-autora do livro «O património genético português: a história humana preservada nos genes” (Gradiva; 7.ª edição) e de mais de 120 artigos indexados e publicados em revistas internacionais, liderou e /ou participou em 23 projetos de investigação. Em paralelo, participa assiduamente em ações de divulgação de Ciência. Mais recentemente, percorreu o país do curso com a sua “Odisseia Genética”, um curso focado na realização informada de testes de ancestralidade.

Mas por estes dias, os esforços de Luísa são dedicados exclusivamente ao combate à pandemia que mudou as nossas vidas. É nesse âmbito que está a a coordenar os recursos e a equipa de voluntários do i3S na realização de testes de diagnóstico do SARS-COV-2. Pelo meio, começou já a trabalhar nos dois projetos do seu grupo de investigação que receberam financiamento da linha de apoio da FCT «Research 4 COVID-19»: uma nova ferramenta de diagnóstico mais rápida e mais barata e o estudo da evolução e mutações acumuladas do novo coronavírus desde que entrou em Portugal.

Luísa Pereira. (Foto: i3S)

Naturalidade? Aldeia Vila Maior, Vila Real

Idade? 45 anos

– Do que mais gosta na Universidade do Porto?

O facto de ainda ser uma excelente escola, comparando alunos de mestrado e doutoramento provenientes da U.Porto com alunos visitantes de várias universidades europeias.

– Do que menos gosta na Universidade do Porto?

De não ter conseguido integrar de forma honesta e eficaz os investigadores provenientes dos centros de investigação. Estes profissionais não podem ser meros professores convidados a custo zero.

– Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto?

Menor endogamia nas contratações. A contratação não deverá ser a recompensa de vários anos de aulas a custo zero.

– Como prefere passar os tempos livres?

A descobrir novos países, intercalando cidades e natureza. Quando é mesmo para descansar, a ler um livro num jardim calmo.

– Um livro preferido?

“Of mice and men” de John Steinbeck está no Top-10, juntamente com outros livros de Graham Greene, Philip Roth, Margaret Atwood, Somerset W. Maugham, Vergílio Ferreira, Haruki Murakami, Iris Murdoch, Henry James e José Saramago.

– Um disco/músico preferido?

U2, Nick Cave e David Bowie. Toda a gente que apanhe boleia no meu carro poderia responder a esta pergunta.

– Um prato preferido?

Não tenho. Sou mais vulnerável a sobremesas: cheese cakes, tartes, scones.

– Um filme preferido?

No momento, vem-me à memória “O Véu Pintado”, com Edward Norton, baseado no romance de Somerset W. Maugham. Porque este escritor é muito pictórico e o filme muito fidedigno ao livro.

– Uma viagem de sonho?

Há muitas viagens de sonho. Um exemplo, as últimas férias pela Costa Jurássica, em Dorset, na Inglaterra: apanhar fósseis de amonites na praia perto de Lyme Regis foi uma sensação única. Vou lá voltar e ficar mais do que uma tarde.

– Um objetivo de vida?

Manter a inconformidade.

– Uma inspiração?

Vão variando ao longo da vida, dependendo da disposição. Mas nunca fui muito de seguir modelos.

– O projeto da sua vida…

Em constante evolução.

– Uma ideia para promover a investigação da U.Porto a nível internacional?

Estamos continuamente a trabalhar para isso – é o nosso dia-a-dia. Num congresso no Uganda brinquei que em Portugal não eramos só bons em futebol, que também fazemos ciência. Passei o resto do tempo a ouvir nomes dos nossos jogadores famosos… confesso que eu não conhecia alguns, mas acredito que estariam certos.