Médicos de família alertam para os perigos do sobrediagnóstico

Para Carlos Silva, “está na altura de criar informação escrita sobre as características e os efeitos adversos dos testes de diagnóstico”. (Foto: DR)

“Mais vale prevenir do que remediar”, diz o velho ditado. Mas será mesmo verdade? E quando prevenir traz mais danos do que benefícios? O tema da “Prevenção Quaternária – A arte do primum non nocere” juntou mais de uma centena de médicos de família no I European Forum on Prevention and Primary Care, que se realizou nos dias 3 e 4 de abril, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), com o apoio do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde.

Para Carlos Martins, investigador do CINTESIS e professor da FMUP, “é preciso desenhar estratégias para explicar à população os potenciais problemas dos falsos positivos, do sobrediagnóstico e do sobretratamento”, envolvendo, para isso, os vários “stakeholders”, designadamente os médicos, os governantes e os média.

O investigador considera também que “está na altura de criar informação escrita sobre as características e os efeitos adversos dos testes de diagnóstico”, à semelhança do que já existe para os medicamentos, como forma de alertar e sensibilizar a população para os riscos da sua utilização excessiva e indiscriminada.

As medidas propostas integram-se na chamada “prevenção quaternária”, que consiste na “atitude de identificar os doentes em risco de sofrerem uma sobremedicalização e protegê-los de intervenções médicas invasivas que possam ser nocivas”. A definição é do belga Marc Jamoulle, “pai” da “prevenção quaternária”, que esteve presente no evento.

Ao longo de dois dias, médicos de família de várias nacionalidades identificaram algumas das áreas mais problemáticas. O dinamarquês John Brodersen, por exemplo, alertou para as consequências psicológicas dos falsos positivos no “screening” do cancro da mama, sublinhando que são independentes do carácter mais ou menos invasivo das intervenções médicas.

Jaime Correia de Sousa, presidente do International Primary Care Respiratory Group, elencou outros perigos do sobrediagnóstico, como os custos para o sistema de saúde e a “rotulagem” do indivíduo como “doente”, o que pode refletir-se em áreas como a profissão ou a contratação de um seguro.

Já Leo Pas, membro do Grupo de Saúde Mental e Violência Doméstica da EUROPREV, referiu a necessidade de explorar, nas consultas, as causas subjacentes às queixas dos doentes e averiguar as respostas que eles esperam dos médicos. “Em vez de escavar o problema, devemos escavar a solução”, afirmou.

Na sessão de abertura, o coordenador do CINTESIS e anfitrião do evento, Altamiro da Costa Pereira, havia destacado o potencial de crescimento da Medicina Familiar no que respeita à investigação nesta área “Não há laboratório como a comunidade. Espero que continuem a estudar estes dilemas”, exortou.

O I European Forum on Prevention and Primary Care foi organizado pela EUROPREV – European Network for Prevention and Health Promotion in Family Medicine and General Practice /WONCA – World Organization of Family Doctors, como o apoio do Departamento de Medicina da Comunidade, Informação e Decisão em Saúde da FMUP, do CINTESIS e da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar.