Investigadores do CIBIO-InBIO descobrem nova espécie de borboleta em Portugal

A Ypsolopha rhinolophi apresenta uma anatomia claramente diferente de todas as espécies já conhecidas no nosso país. (Foto: DR)

Uma equipa do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO-InBIO), composta pelos investigadores Martin Corley, Sónia Ferreira e Vanessa Mata, identificou uma nova espécie de borboleta noturna em Portugal. Chama-se Ypsolopha rhinolophi e acaba de ser descrita na última edição da prestigiada revista Zootaxa.

Contudo, as primeiras pistas sobre esta nova borboleta vieram das fezes de dois morcegos de ferradura, mais precisamente de fragmentos de ADN aí encontrados. Na verdade, e tal como tantos outros exemplos de descobertas científicas, a descrição desta nova espécie não era o objetivo inicial dos autores do artigo. “Descobrimos esta nova espécie ao realizar um estudo mais alargado sobre a dieta de morcegos no Norte de Portugal”, explica Vanessa Mata, co-autora do artigo.

Sabe-se que os morcegos ferradura alimentam-se de uma grande quantidade de insetos. No estudo da dieta de morcegos, Vanessa e seus colegas queriam identificar as diferentes espécies de insectos das quais os morcegos se alimentavam e assim perceber como podem nos ajudar no combate às pragas agrícolas. Para isso, os investigadores analisaram o conteúdo das fezes dos morcegos recorrendo a uma técnica conhecida por Código de Barras de ADN ou DNA Barcoding.

Em biologia, “códigos de barras” são segmentos curtos de ADN que podem ser analisados para distinguir as diferentes espécies existentes. A identificação de um organismo através deste método baseia-se na comparação dos “códigos de barras” com uma base de dados na qual diferentes espécies estão catalogadas.

Durante a análise genética os investigadores encontraram em duas amostras de fezes um “novo” Código de Barras de ADN . “Observamos que um segmento de DNA era semelhante ao de uma borboleta, contudo distinto das espécies já conhecidas” acrescenta Vanessa Mata. Os investigadores voltaram então ao sítio onde haviam recolhido as fezes de morcego em busca de borboletas. Encontraram algumas borboletas com anatomia claramente diferente das espécies já conhecidas e cujo material genético era perfeitamente compatível ao “novo” Código de Barras encontrado nas fezes do morcego.

Reconhecida a existência de uma nova espécie para a ciência, os investigadores decidiram, então, nomear a nova espécie em sua honra. Ao revisar os exemplares de borboletas presentes em diferentes museus de história natural, os autores verificaram ainda que a Ypsolopha rhinolophi não ocorre somente no norte de Portugal, mas também no sul de França.

A nova espécie foi descrita com a ajuda de dois morcegos de ferradura. (Foto: DR)

Muito ainda por descobrir

A nova espécie de borboleta é descrita na semana em que se comemora o Dia Internacional da Biodiversidade. Para além de ser um contributo à Biologia chama-nos à atenção para o quanto ainda desconhecemos sobre a diversidade biológica em nosso planeta. Também demonstra o potencial das técnicas de análise ao DNA na descoberta de novas espécies.

O estudo agora publicado foi desenvolvido no âmbito do projecto EnvMetaGen CIBIO-InBIO, mais precisamente a iniciativa IBI: InBIO Barcoding Initiative. Este projecto é financiado pelo programa Horizonte 2020 da Comissão Europeia e tem como objectivo fomentar a investigação em metagenómica ambiental em Portugal, e o IBI consiste na construção de uma biblioteca de códigos de barras de DNA de Invertebrados.

Espera-se que esta coleção de referência do CIBIO-InBIO seja uma ferramenta fundamental para a monitorização da biodiversidade a longo prazo e em larga escala na Península Ibérica e, seguramente, a identificação de mais espécies por enquanto desconhecidas da Ciência.