i3S testa novas terapias para a doença de Alzheimer

Isabel Cardoso, investigadora do i3S

Isabel Cardoso dedica-se há vários anos ao estudo da Doença de Alzheimer. (Foto: i3S)

A equipa liderada por Isabel Cardoso, do i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, acaba de ser contemplada com um apoio de 37,5 mil euros, pela Fundação Millennium bcp para, nos próximos 24 meses, aprofundar o seu trabalho na Doença de Alzheimer. Com este apoio, a investigadora vai estudar a influência e interação no cérebro de algumas proteínas que estão na base do desenvolvimento desta patologia e avaliar o efeito de compostos terapêuticos nessas interações.

A Fundação Millennium bcp, instituída em 1991, desenvolve a sua ação mecenática em várias áreas: Cultura, Solidariedade Social, Ciência e Conhecimento. É no âmbito desta última que a Fundação vai apoiar o projeto de Isabel Cardoso no estudo de uma doença progressiva que atinge o cérebro e se caracteriza pela perda de memória e das capacidades de pensamento, e “que afeta atualmente cerca de 47 milhões de pessoas”, segundo a investigadora.

Esta equipa do i3S dedica-se ao estudo de uma proteína, a Transtirretina (TTR), que está envolvida em várias doenças neurodegenerativas. Segundo Isabel Cardoso, “a TTR está presente no sangue e no líquido cefalorraquidiano, tendo uma ação protetora na Doença de Alzheimer”, cuja origem está associada à deposição progressiva de um fragmento proteico, o Peptídeo Abeta, que a TTR tem capacidade de capturar. Através de uma série de mecanismos, a TTR consegue transportar este peptídeo até ao fígado onde ele é naturalmente degradado e eliminado, evitando que ele se acumule no cérebro.

Nos doentes de Alzheimer a estabilidade da TTR está diminuída e essa função de limpeza do Peptídeo Abeta fica comprometida. Segundo Isabel Cardoso, “no caso da Doença de Alzheimer parece haver problemas de instabilidade na TTR”, mas acrescenta que “a equipa já demonstrou ser possível estabilizar a TTR com pequenos compostos químicos que a ela se ligam”. Os “pequenos compostos químicos” que a equipa do i3S está a explorar são anti-inflamatórios não esteroides e alguns parecem melhorar a memória e performance cognitiva de ratinhos transgénicos, usados como modelo de estudo da doença de Alzheimer.

Contudo, “é preciso ainda muita investigação para identificar quais dessa compostos conseguem estabilizar a TTR e, em simultâneo, aumentar a sua interação com o péptido Abeta”, explica Isabel Cardoso. Por isso, a equipa irá, com o apoio dado pela Fundação Millennium bcp, aprofundar o estudo dos fatores que influenciam a estabilidade da TTR e a sua capacidade de ligação ao péptido Abeta, bem como escrutinar quais os compostos que podem ajudar nessa tarefa.

Isabel Cardoso licenciou-se em Bioquímica, pela Universidade do Porto, tendo de seguida desenvolvido o seu projeto de doutoramento na área da paramiloidose (Doença dos Pezinhos), contribuindo para a compreensão dos mecanismos subjacentes a esta doença, bem como para a identificação de compostos terapêuticos. Mais tarde, interessou-se pelas alterações que ocorrem no cérebro, como consequência do desenvolvimento da Doença de Alzheimer, área em que continua a trabalhar. Atualmente, investiga a ação neuroprotetora da proteina Transtirretina no cérebro e na Doença de Alzheimer, e interessa-se também pelas alterações que ocorrem nas barreiras cerebrais, em contextos patológicos.