O tratamento foi aplicado em 12 beagles, que foram entretanto adotados sob a condição de continuarem a poder ser seguidos pelos investigadores. (Foto: DR)

Um consórcio internacional, que junta nove instituições académicas e três empresas, e do qual faz parte o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) da Universidade do Porto, descobriu um novo composto químico para tratar  Leishmaniose. O novo tratamento já foi aplicado com sucesso em 12 cãezinhos e é mais eficaz, menos tóxico, mais barato do que os tratamentos disponíveis, tendo ainda a vantagem de ser administrado por via oral.

Este novo fármaco resulta de um projeto de investigação chamado NMTryp (New Medicine for trypanosomatidic infections) envolveu 12 parceiros europeus e de países com doenças endémicas (Itália, Grécia, Portugal, Sudão e Brasil) e foi financiado pela União Europeia, em 2014, com 7,6 milhões de euros.

Seis anos volvidos, e depois de terem sido testadas mais de meio milhão de moléculas neste consorcio e realizados testes in vitro e in vivo, em ratinho, hamster, cão e macaco, «podemos dizer que obtivemos um composto de síntese química, logo muito mais barato, que funciona, é de administração oral e tem menor toxicidade para os animais do que os fármacos disponíveis no mercado», explica Anabela Cordeiro da Silva, líder do grupo de investigação do i3S «Parasite Disease», que integra o consórcio.

«O composto está patenteado e decorrem já negociações com a indústria farmacêutica veterinária. Não tenho dúvidas de que este composto será brevemente comercializado para os cãezinhos», acrescenta a também docente da Faculdade de Farmácia da U.Porto (FFUP).

Uma nova esperança

Berta, Bimba, Cañita, Gala, Charlize, Chula, Frida, Ginger, Tula, Lola, Gilda e Rubia são os 12 beagles em que foi testado o novo composto. O tratamento foi recentemente concluído e os cãezinhos já foram todos adotados com a condição de continuarem a poder ser seguidos pelos investigadores. Neste momento, adianta, Anabela Cordeiro da Silva, «só nos falta determinar o local preciso do parasita em que o composto atua, apesar de já termos indicação do seu mecanismo de ação e iniciar os ensaios clínicos de fase 1 em humanos».

Causada por um parasita microscópico, a Leishmaniose é transmitida através da picada de um inseto semelhante a uma mosca da areia, o flebótomo. Após a infeção, a doença evolui de forma muito grave, e, se não for tratada, pode mesmo ser fatal tanto para o cão como para o Homem. Mesmo com os tratamentos atualmente utilizados, só em alguns casos se consegue eliminar definitivamente a infeção.

A doença pode ser transmitida ao homem, não só por picado inseto portador do parasita como por via parentérica no caso de utilizadores de drogas injetáveis infetados assim como por dadores de sangue ou de órgãos infetados, nos países em que o despiste da doença não é obrigatório como o caso de Portugal. A debilidade o sistema imunitário favorece o desenvolvimento da doença, como em doentes HIV positivos e doentes a realizar tratamentos imunossupressores, como o tratamento para o cancro e em situações de transplante de órgãos.

De acordo com as estimativas mais recentes, 200 milhões de pessoas vivem em países de risco para a Leishmaniose, onde se incluem os países do Sul da Europa, como Portugal, Espanha, Itália e Grécia. Em Portugal, trata-se de uma doença endémica, ou seja, há um grande número de cães infetados em todo o território. São focos de maior risco as Beiras, Trás-os-Montes, Ribatejo, Alentejo, mas sobretudo, o Douro, área metropolitana de Lisboa, Setúbal e Algarve, onde um em cada 10 cães pode manifestar a doença. Ainda assim, há pouquíssimos casos de infeção primária em humanos.

Segundo dados das administrações regionais de Saúde, entre 1999 e 2009 foram registados 375 casos em humanos, com especial incidência na região de Lisboa e Vale do Tejo. Nada comparável com os 12 milhões de casos registados em todo o mundo e com as 50 mil mortes registadas a cada ano.