Não é novidade que o lixo marinho tem cada vez mais visibilidade nas praias de todo o mundo, mas um estudo realizado por investigadores do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto (CIIMAR-UP) veio agora revelar que, nas praias do norte de Portugal, é possível encontrar quatro vezes mais lixo marinho do que sargaço.

O sargaço é o resultado da deposição natural de algas e ervas marinhas nas praias e, se à primeira vista nos parece apenas lixo, a verdade é que o sargaço compreende importantes serviços ecológicos nas praias arenosas como, por exemplo, a manutenção do ciclo de nutrientes ou das cadeias tróficas marinhas. Alterações aos ritmos, quantidade e composição destas deposições têm importantes consequências no domínio da ecologia marinha.

O estudo “Spatio-Temporal Variability of Anthropogenic and Natural Wrack Accumulations along the Driftline: Marine Litter Overcomes Wrack in the Northern Sandy Beaches of Portugal”, realizado pelos investigadores do CIIMAR Laura Guerrero-Meseguer, Puri Veiga e Marcos Rubal e publicado na revista internacional Journal of Marine Science and Engineering, fornece os primeiros dados sobre a composição e abundância de sargaço e lixo marinho depositados ao longo do ano nas praias arenosas do Norte de Portugal.

Os resultados demonstram que as deposições de lixo marinho excedem consideravelmente a quantidade de sargaço. “Encontramos 4 vezes mais lixo que algas ou ervas marinhas e este dado fala por si mesmo”, refere a investigadora Puri Veiga.

O material mais abundante do lixo marinho encontrado nas praias foi o plástico proveniente de materiais de pesca (cordas, redes emaranhadas, linhas de pesca ou rolhas plásticas para a cultura do mexilhão) e objetos do dia-a-dia das populações, como cotonetes, beatas de cigarro entre outros poluentes.

A investigadora Laura Guerrero-Meseguer, primeira autora do artigo em questão mostra as suas preocupações com estes dados: “O facto de a maioria dos materiais que chegam às praias serem plásticos em vez de restos orgânicos e biodegradáveis indica que temos um problema urgente de contaminação a resolver. Acredito que se queremos continuar a desfrutar da qualidade das praias portuguesas temos de estar mais atentos aos locais onde depositamos o nosso lixo.”

Os impactos nos ecossistemas

Marcos Rubal, investigador do CIIMAR que liderou o estudo, recolhe lixo misturado com sargaço nas praias do norte de Portugal. (Foto: DR)

As consequências deste facto são imensuráveis e vão desde o impacto negativo na decomposição e libertação de nutrientes para o ecossistema até a impactos nas cadeias tróficas marinhas já que são inúmeros os invertebrados que se alimentam de sargaço e consequentemente dos poluentes a eles associados, levando-os a transmitir-se pela cadeia alimentar. Marcos Rubal, investigador do CIIMAR que liderou o estudo reforça as consequências nos ecossistemas marinhos, destaca “é muito importante perceber a importância ecológica do sargaço e como o lixo pode alterar o seu papel no ecossistema costeiro.”

Os resultados mostraram pela primeira vez que as praias arenosas do norte de Portugal apresentaram maior quantidade de lixo marinho do que previamente encontrado em outras praias do Atlântico Norte e que as deposições de lixo marinho e sargaço apresentam uma grande variabilidade espacial e temporal.

Além do impacto ecológico também pode ter impactos negativos a nível social ou económico e evidencia a necessidade de medidas urgentes contra esta contaminação.