Um grupo de investigadores do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, Unidade de I&D com sede na Universidade do Porto, criou curvas de referência de crescimento fetal e peso à nascença – conhecidas por tabelas de percentis –  adaptadas à realidade portuguesa. O estudo foi publicado no European Journal of Obstetrics & Gynecology.

As curvas de referências de crescimento fetal e peso à nascença são essenciais durante o acompanhamento das gravidezes, permitindo aos médicos de família e obstetras estimarem o tempo de gravidez, calcularem a data prevista para o parto e diagnosticarem, ao longo da gestação, problemas de desenvolvimento dos fetos, tais como restrição de crescimento fetal ou macrossomia fetal (excesso de peso).” A identificação destes problemas de desenvolvimento é muito importante porque a restrição de crescimento ou, pelo contrário, a macrossomia, podem ser sintomas ou indicadores de doenças da gravidez (como diabetes, pré-eclampsia) ou do feto (doenças metabólicas, doenças genéticas, entre outras).

Os médicos reconhecem que, embora sejam amplamente utilizadas, as tabelas internacionais em uso apresentam algumas deficiências. “Existe uma grande variedade de tabelas de referência utilizadas na Europa, bem como noutros locais. A falta de validação e ajuste de variáveis importantes (como a etnia, a região e a altura da mulher) é a regra, somado ao fato de que os neonatalogistas e obstetras costumam usar tabelas diferentes, o que pode gerar confusão”.

“O uso de tabelas de referência que não reflitam a distribuição da população em que são utilizadas leva a vieses na aplicação de critérios clínicos, tais como os percentis. Isto promove o sobre ou subdiagnóstico de algumas doenças”, esclarece Ricardo Santos, investigador do CINTESIS e professor no Departamento de Medicina da Comunidade, Informação e Decisão em Saúde (MEDCIDS) da Faculdade de Medicina da U.Porto (FMUP).

“Os pais querem sempre que os seus filhos sejam especiais… Menos na gravidez. Sempre que se afastam da média ficam preocupados, especialmente se o crescimento ou o peso fetal for baixo. O problema é que, por definição, metade dos bebés está abaixo da média, pelo que a angústia é frequente e poucas vezes fundamentada”, diz Ricardo Santos.

Em busca de diagnósticos mais precisos e angústias reduzidas ao mínimo, a equipa de investigação do CINTESIS procurou desenvolver e validar curvas de referência de crescimento fetal e peso ao nascer para a população portuguesa. Para isso, foram recolhidos dados de mais de 660 mil nascimentos ocorridos em 22 instituições nacionais, tendo sido selecionados os dados de 62 mil recém-nascidos que reuniram os critérios definidos pelos investigadores. “É a maior amostra colhida no nosso país e a única que incluiu vários hospitais”, salienta o investigador do CINTESIS.

Os resultados revelaram que os dados ajustados para Portugal diferem em mais de 150 g dos dados de referência de alguns países europeus (Irlanda e Inglaterra), sendo semelhante a outros (Espanha e França), o que denota a importância de usar curvas adaptadas para cada região.

O crescimento fetal dos seres humanos é definido por vários fatores: género (os rapazes são maiores), herança genética e etnia, tamanho (e peso) da mãe, doenças da mãe, número de filhos anteriores, alimentação, álcool e tabaco durante a gravidez (tabaco diminui o peso ao nascer em cerca de 5%), altitude (do local onde vive), entre outros. “Ter curvas de percentis credíveis e adaptadas à população é indispensável para identificar um subconjunto de fetos que podem necessitar de uma avaliação mais cuidada, porque a probabilidade de doença é, apesar de tudo, maior”, explica o médico da instituição vimaranense.

Depois de criadas as curvas, o investigador do CINTESIS resolveu ir mais longe e, através de uma colaboração com uma equipa do Perinatal Institute, liderada pelo professor Jason Gardosi, desenvolveu ainda um sistema que permite não só a avaliação do crescimento e peso fetal por comparação com referências nacionais, como a personalização das curvas às características das grávidas. “As curvas não são iguais para uma mulher de 1,55m e 55 kg que vai ter um primeiro filho e uma outra mulher com 1,80m, 80 kg e que vá já numa terceira gravidez”.

A equipa de investigação do CINTESIS desenvolveu também um software que facilita a adoção das novas curvas em território nacional, uma vez que entendem ser necessário abandonar dados antigos e uniformizar as referências utilizadas. Assim, as curvas de referência definidas neste estudo foram disponibilizadas para uso clínico no software GROW do Perinatal Institute. A aplicação Android está disponível gratuitamente na Play Store, a loja oficial para a plataforma. Os profissionais de saúde podem ainda aceder aos documentos através do link http://fetalgrowth.med.up.pt/.