“A sustentável leveza de sermos futuro” foi o mote para a comemoração do 49.º aniversário do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto, que se assinalou no passado dia 13 de maio. Sustentabilidade, uma expressão cuja utilização “se tem tornado repetitiva”, mas sobre a qual “é importante que se reflita, porque não é agarrados às glórias do passado que se consegue concretizar a sustentabilidade de um projeto”, afirmou a esse respeito o diretor do ICBAS, Henrique Cyrne Carvalho.

A sessão contou com a presença do Reitor da U.Porto, que destacou o compromisso da Universidade com a sustentabilidade, e o seu empenho “em ser parte da solução, através do desenvolvimento de projetos e iniciativas que promovam a sustentabilidade em todas as suas vertentes”.

António Sousa Pereira elogiou o ICBAS pelo seu funcionamento “como um verdadeiro ecossistema, cujas sinergias internas e externas permitem o desenvolvimento das chamadas «áreas de fronteira» do conhecimento científico”.

Em representação do Centro Hospitalar Universitário de Santo António, o diretor clínico, José Barros, focou a sua intervenção no difícil papel das unidades hospitalares no caminho da sustentabilidade, já que o setor da saúde é responsável por 5% das emissões de gases com efeito de estufa, o equivalente ao total das emissões produzidas, no mundo, por países como o Brasil e o Japão.

Uma realidade que José Barros atribuiu à necessidade “de funcionamento em contínuo destas unidades, ao consumo intensivo de eletricidade, gás e água, obrigações legais de segurança e qualidade e produção de resíduos”, aos quais se aliam “a contribuição para o setor dos transportes, a contaminação do ar e da água por fármacos e a resistência a antimicrobianos” associados a “uma regulamentação exagerada” na gestão dos resíduos hospitalares. A solução, considerou, poderá passar pela “bioética verde, alinhando a ética médica com o meio ambiente” com efeitos na saúde dos cidadãos e do planeta.

Os estudantes, representados pela presidente da AEICBAS, Mariana Almeida, também se fizeram ouvir, defendendo a necessidade de serem “incluídos e reconhecidos” para que possam contribuir para “um futuro sustentável”.

“Valorizar os jovens e valorizar as novas gerações é lutar por um futuro sustentável em todas as suas vertentes. Porque quando desafiamos a narrativa convencional, percebemos que a sustentabilidade não se limita à preocupação ambiental; a sustentabilidade é uma estratégia abrangente”, defendeu Mariana Almeida.

“Melhorar a sustentabilidade? Há que melhorar o comportamento.”

O geofísico e professor da Universidade de Lisboa, Filipe Duarte Santos, foi o orador convidado para uma perspetiva da sua área científica sobre a sustentabilidade, esse “conceito de visibilidade enorme, mas ao mesmo tempo muito recente”, como o descreveu. “Ainda me intriga porque é que é tão difícil de implementar”, afirmou, apresentando algumas condicionantes que se assumem como “fronteiras no caminho para a sustentabilidade”.

“Continuando com o recurso aos combustíveis fósseis, não é possível fazer a descarbonização. Todas as ações que se fizerem, como plantar árvores, como a preocupação com as emissões do setor da saúde, são extremamente importantes. Mas, se não descontinuarmos o uso dos combustíveis fósseis, esqueçam”, perspetivou Filipe Duarte Santos, referindo-se concretamente ao impacto dos conflitos armados na Europa na (falta de) sustentabilidade global.

Por outro lado, o “desconto temporal” dificulta a resolução de decisões atuais que “só terão em conta o que se irá passar daqui a 50/100 anos, como o é o caso das alterações climáticas”. “Mesmo que as emissões fossem completamente reduzidas para zero, hoje, em todo o mundo, a temperatura continuaria com valores atuais durante séculos”, garantiu o especialista.

Ainda assim, será possível melhorar as fronteiras no caminho da sustentabilidade? Filipe Duarte Santos diz que “é difícil, e pode até ser impossível”. Mas a solução, acredita, passa por “ter consciência” e “melhorar o nosso comportamento”.

A sessão de aniversário dedicada à sustentabilidade contou ainda com uma instalação em vídeo da autoria da artista de multimédia Mariana Vilanova – “Before and After Us” – que convidou à imersão numa perspetiva menos visível da realidade associada às plantas e a outros seres vivos.

A cerimónia foi ainda palco da atribuição da 2.ª edição da Bolsa de Doutoramento Nuno Grande, uma iniciativa conjunta da Fundação Bial, do ICBAS e da família do fundador da escola Nuno Grande, que este ano premiou o estudante de doutoramento em Ciências Médicas, João Moura.