São mais de 3000 páginas do arquivo pessoal de um dos mais importantes botânicos portugueses e vão “sair” pela primeira vez do Herbário do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade Porto (MHNC-UP) para se dar a conhecer ao mundo. O projeto chama-se Dear Monsieur Sampaio e desafia toda a comunidade a decifrar e transcrever cartas históricas trocadas por Gonçalo Sampaio (1865 – 1937) sobre botânica, ciência, política e… música.

Integrado na plataforma Zooniverse, a iniciativa foca-se, então, em toda a correspondência histórica do antigo professor da Faculdade de Ciências da U.Porto (FCUP), atualmente alojada no Herbário da Universidade do Porto. O convite é para que qualquer pessoa venha descobrir e partilhar o conteúdo das cartas escritas pelo botânico a outras individualidades ou até mesmo os seus rascunhos. Como fazê-lo? Tendo acesso a digitalizações que irá transcrever. Depois de lidos e transcritos, estes documentos passarão a estar acessíveis a investigadores de todo o mundo.

Que projeto é este? Quem pode participar? Está aberto a todos aqueles que tenham um gosto particular por história, que sejam especialistas em línguas, ou, então, que tenham curiosidade pelo passado. É, na sua essência, um projeto de ciência cidadã.

Será graças ao empenho da comunidade que estes pensamentos, esta partilha e este conhecimento será resgatado do fundo da gaveta para a luz do tempo presente, podendo, assim, integrar a história da ciência. Aí sim, será acessível a todos.

Correspondência de Gonçalo Sampaio. (Foto: DR)

Caro Senhor,

“Estamos entusiasmados por embarcar nesta viagem de exploração e descoberta com a comunidade global”, diz-nos Cristina Vieira, curadora do Herbário do MHNC-UP. Afinal, Dear Monsieur Sampaio “representa uma oportunidade única para reconstruir ligações intelectuais e desvendar as diversas narrativas presentes nestas cartas históricas”.

Como ter acesso à correspondência? Está online em: Dear Monsieur Sampaio… — Zooniverse. Basta criar uma conta neste portal de ciência cidadã, operado pela “Citizen Science Alliance”, e dar início à jornada como “cidadão cientista”.  Após validação das transcrições, estes documentos passarão a ser acessíveis a investigadores e entusiastas de todo o mundo.

Com este trabalho estará a desempenhar um papel crucial na preservação e reconstrução da rede intelectual de Gonçalo Sampaio.

Para mais informações sobre o projeto, contactar o MHNC-UP através do e-mail [email protected]

Sobre Gonçalo Sampaio

Natural de S. Gens de Calvos, freguesia do concelho da Póvoa de Lanhoso, onde nasceu a 29 de março de 1865, Gonçalo Sampaio formou-se Química Mineral, Botânica e Zoologia pela Academia Politécnica do Porto (antecessora da Universidade do Porto). Em 1901, é nomeado naturalista-adjunto da secção de Botânica da mesma Academia.

Revelando desde muito cedo um especial talento para os estudos de plantas, publicou o seu primeiro trabalho sobre a flora portuguesa em 1895. Entre 1909 e 1914, publicou o Manual da Flora Portuguesa, obra indispensável ao conhecimento da flora nacional.

Foi já como diretor do Gabinete de Botânica da recém-criada Faculdade de Ciências da U.Porto (criada em 1911, após a fundação da Universidade) que recebeu, em novembro de 1918, o grau de Doutor em Ciências Histórico-Naturais. Dois anos depois, cria e dirige o Instituto de Investigações Científicas de Botânica (futuro Instituto de Botânica Gonçalo Sampaio e um dos primeiros instituto de investigação nascidos no seio da Universidade), cargo que desempenha em paralelo com os de diretor do Laboratório e Museu de Botânica, ambos anexos à FCUP.

Gonçalo Sampaio é um nome incontornável da História da Botânica em Portugal no final do século XIX, início do século XX. (Foto: DR)

Docente inovador, Gonçalo Sampaio aplicou a técnica histológica (utilização do microscópio) nas suas aulas práticas e, como investigador, dedicou-se especialmente ao estudo das plantas vasculares portuguesas e dos líquenes. Ficou conhecido pela marcada preocupação com a nomenclatura botânica, apresentando alguns princípios divergentes dos seguidos no Código de Nomenclatura Botânica oficial.

A Gonçalo Sampaio deve-se a descrição de cerca de 70 novas espécies  botânicas – incluindo 50 espécies de plantas vasculares e cinco de algas marinhas – e um género novo, denominado Carlosia. Para além disso, editou a monografia Rubus portuguesa (1904), elaborou um herbário, publicou um catálogo de líquenes de Portugal continental, estudou a flora liquenológica galega com Luiz Crespi, e organizou uma exsiccata de líquenes portugueses.

Durante todo este percurso, foi travando relações (e correspondência) com botânicos portugueses e estrangeiros, daí o Dear Monsieur Sampaio ser uma oportunidade única para mergulhar neste universo de descoberta partilhada.

Em paralelo com a atividade académica, a paixão pela música levou-o a estudar violino, como autodidata, e a investigar o folclore. Recolheu cerca de 200 canções populares, editadas no Cancioneiro Minhoto.

Gonçalo Sampaio morreu no Porto a 27 de Julho de 1937, com 72 anos de idade, tendo deixado dois manuscritos praticamente prontos (Flora de Portugal e Catálogo dos Líquenes portugueses) que foram editados sob a direção de Américo Pires de Lima, em 1946, com o título Flora Portuguesa.

Parte do seu trabalho pode ser encontrada ainda hoje no Herbário do MHNC-UP, que dirigiu entre 1922 e 1935.