Um ESPRESSO para descobrir novos mundos

Os quatro telescópios do VLT, no Observatório do Paranal, Chile. O ESPRESSO irá receber a luz conjunta recolhida pelos quatro telescópios. (Imagem: ESO/B. Tafreshi)

Após perto de dez anos de planeamento e construção, o espectrógrafo ESPRESSO, instrumento de alta resolução que irá permitir descobrir exoplanetas semelhantes à Terra, vai ser agora instalado no Very Large Telescope (VLT) do ESO, no Chile. O Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), pela sua forte participação no consórcio, terá acesso privilegiado à exploração científica deste instrumento, cujos primeiros dados se espera que sejam obtidos a partir de meados de 2018.

O espectrógrafo ESPRESSO permitirá, em particular, decompor e analisar a luz proveniente de estrelas e, com esta informação, medir a velocidade com que as estrelas se aproximam ou se afastam de nós. Com o nível de precisão do ESPRESSO, capaz de medir uma variação de velocidade inferior a um quilómetro por hora, será possível medir o movimento induzido na estrela pela influência gravítica de um planeta tão pequeno como a nossa Terra. Conseguir-se-á também determinar a massa do planeta. Espera-se ainda que os dados permitam, em certos casos, identificar elementos químicos presentes na sua atmosfera.

Passados os testes preliminares na Europa, como anunciado pelo ESO no dia 22 de agosto, o ESPRESSO vai partir para a sua primeira etapa na descoberta de novos mundos, o Observatório do Paranal, no Chile. Foi da responsabilidade da equipa liderada pelo IA o desenvolvimento e instalação do sistema ótico que recolhe a luz captada por cada um dos quatro telescópios do VLT e a leva até ao local onde será instalado este espectrógrafo.

Nuno Cardoso Santos (IA e Universidade do Porto), um dos investigadores principais deste instrumento, sublinha a importância do envolvimento simultâneo do IA na definição de objetivos científicos e no desenvolvimento de instrumentação: “A equipa do IA irá agora participar, em conjunto com os parceiros do consórcio, na exploração científica do ESPRESSO. No total teremos disponíveis 273 noites de observação com o VLT!

O ESPRESSO (Echelle SPectrograph for Rocky Exoplanet and Stable Spectroscopic Observations) completou todos os testes preliminares e irá em breve ser enviado para o Chile para ser instalado no VLT. (Foto: University of Geneva)

Pedro Figueira (IA e Universidade do Porto), membro da equipa científica do projeto, acrescenta: “Participamos também já de forma muito ativa na preparação das observações. A título de exemplo, somos neste momento os responsáveis por definir o catálogo de estrelas a observar para procurar planetas.”

Mas o ESPRESSO não se irá dedicar apenas à descoberta de exoplanetas. Carlos Martins (IA e Universidade do Porto), membro também da equipa científica, acrescenta que o IA é igualmente responsável por definir os alvos prioritários em física fundamental. “A estabilidade deste instrumento, em conjunto com a possibilidade de combinar a luz proveniente dos quatro telescópios do VLT, irá permitir-nos testar, com uma exatidão sem precedentes, a universalidade das leis da física no Universo primordial e lançar luz sobre o enigma da energia escura”, diz Carlos Martins.

A componente tecnológica portuguesa do projeto ESPRESSO foi desenvolvida em parceria entre o IA e o Laboratório de Óptica, Lasers e Sistemas (LOLS), uma unidade de transferência de tecnologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Para Alexandre Cabral (IA e FCUL), “a chegada ao Observatório do Paranal será o culminar de oito anos de trabalho num consórcio internacional em que a investigação e a indústria portuguesas mostraram com sucesso o seu valor. Enquanto se abre a porta para a Ciência que será feita com o ESPRESSO, estamos já a começar o desenho dos próximos grandes espectrógrafos.”

Nuno Santos acentua esta participação do IA em futuros instrumentos: “Durante estes anos tivemos a oportunidade de demonstrar que somos parceiros internacionais de alto nível para qualquer outro projeto state-of-the-art na área do espaço”, diz Nuno Santos. “Isso já nos abriu várias portas para outros projetos, incluindo um papel de grande relevância no projeto do HIRES, um espectrógrafo de alta resolução planeado para o futuro ELT.”

Mais informações no site do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço.