Silicon Valley investe 3 milhões de dólares em startup com ADN U.Porto

José Luís Pereira é alumnus de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores da FEUP (Foto: DR)

Chama-se Fyde, é uma startup na área da cibersegurança com sede na Califórnia, tem entre os seus criadores um antigo estudante da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e uma antiga professora da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) e, apesar da sua recente existência (2017), conta já com um investimento de 3 milhões de dólares em capitais de risco vindos de Silicon Valley.

Comecemos a história pelo seu início: José Luís Pereira terminou em 2011 o Mestrado Integrado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, numa altura em que Portugal vivia uma crise profunda e onde a presença e densidade de startups era praticamente inexistente, mesmo nos seus dois pólos centrais (Porto e Lisboa).  Este contexto, aliado ao facto de estar a fazer investigação no Laboratório de Inteligência Artificial e Ciência de Computadores (LIAAC) – polo FEUP, ajudou José a decidir inscrever-se no Programa Doutoral em Engenharia Informática (ProDEI), onde conhece Luísa Lima, doutorada em segurança de codificação na rede pelo Departamento de Ciência de Computadores (FCUP), na altura a fazer ‘pós-doc’ no Instituto de Telecomunicações.

Acontece que a vontade de José Luís de ‘meter as mãos na massa’ era tão grande que a conclusão do Doutoramento acabou por ficar suspensa. Uma vez que em paralelo com os estudos foi desenvolvendo aplicações para smartphone de open source software (distribuição livre) que atingiram mais de 1 milhão de downloads, a visibilidade a nível internacional foi surgindo, e com ela apareceram ofertas de trabalho no estrangeiro.

Em 2012, o antigo estudante da Faculdade de Engenharia estava a fazer as malas para rumar a Silicon Valley, na Califórnia, para se juntar a um grupo de amigos, dois Turcos e um Argentino, todos da área da cibersegurança, e formarem a startup Remotium, que ganhou, em 2013, o prémio de startup mais inovadora na maior conferência de cibersegurança do mundo, a RSA conference. Esta empresa acabou por ser vendida à Avast (mais conhecida pelos seus anti-vírus) em 2015, onde a equipa permaneceu mais dois anos.

É em 2017 que o grupo concretiza a sua ideia de criar uma startup que tem o grande objetivo de, mais do que tratar ataques cibernéticos, preveni-los. José contacta a antiga coorientadora do programa Doutoral (Luísa Lima), à data professora auxiliar do Departamento de Ciência de Computadores da FCUP, que inicia o processo de
recrutamento da equipa de engenharia basilar. É então fundada a Fyde, empresa que oferece uma aplicação para smartphones que bloqueia ameaças e tentativas de phishing, smishing, vishing e outras tentativas de fraude informática e roubo de dados.

Quer isto dizer que no mundo da cibersegurança, e apesar dos sistemas operativos dos smartphones serem cada vez mais seguros, eles não protegem o utilizador dos seus próprios erros, do fator humano. Quantas vezes já recebeu um e-mail aparentemente do seu banco a indicar que tem de clicar num link para atualizar alguma questão na conta? Quando esta mensagem pede algum tipo de ação, seja fazer login, transferir dinheiro ou instalar uma app, o utilizador pode ficar comprometido, a sua conta ficar a ser controlada pelo hacker. E é sobre este tipo de ataque que a Fyde atua, bloqueando-os à partida. Este é o grande fator de diferenciação face aos anti vírus, que atuam depois de já ter sido descarregado um malware e que não conseguem impedir, por exemplo, o roubo de dados para benefício do hacker.

Equipa Fyde do Porto. (Foto: DR.)

Um exemplo bem recente aconteceu com a companhia aérea TAP: um grupo de hackers comprou um domínio com um nome praticamente igual ao original flytap.com em que a única diferença era um pontinho por baixo do “a” (flytạp.com), uma subtileza quase impossível de ser detetadas por um utilizador comum. Isto aliado a um fator viral (partilhar link para ganhar um prémio, por exemplo) acabou por se espalhar por milhares ou até milhões de pessoas em pouco tempo.

Com a Fyde instalada, este tipo de links são bloqueados automaticamente e o utilizador é avisado. Além disso, a aplicação faz verificações adicionais às condições da rede quando um site/app mais sensível (ex: entidade bancária) é aberto, o que se torna particularmente importante quando o utilizador se liga a redes Wi-fi abertas.

E os 3 milhões de dólares de capitais injetados por investidores de Silicon Valley, como surgiram? A verdade é que a primeira startup do grupo (Remotium) já havia sido financiada no Valley, o que facilitou o processo. Poucos dias após o ‘pitch’ dos fundadores, chegou o ‘sim’ como resposta.

Com um total de 20 colaboradores, a empresa sediada em Palo Alto abriu recentemente escritórios na cidade do Porto (a grande maioria da equipa é formada por alumni da U.Porto), está a recrutar um Low-Level Systems Engineer e tem aberto um programa de estágios de verão e colabora com instituições da UP para estágios curriculares. No entanto, a Fyde está sempre aberta a receber candidaturas espontâneas para quem demonstrar aptidão excelente em áreas de desenvolvimento como frontend, backend, low-level, data engineering, data science, systems e QA.

No que toca a objetivos da empresa para o futuro, a equipa de fundadores está a focar-se exclusivamente no desenvolvimento da plataforma e crescimento de utilizadores, mas  está na sua mira a comercialização do produto para empresas – a ideia é que as empresas tenham uma ideia melhor do seu perfil de risco de ataque, ao mesmo tempo que consegue proteger os dispositivos dos seus colaboradores. Além disso, apesar da app apenas estar disponível para iOs, está prevista a disponibilização da Fyde para Android em em meados de setembro.

A aplicação é totalmente gratuita e pode ser descarregada aqui. Para mais informações aceder a Fyde.com.