Portugal é caso de sucesso na aproximação dos utilizadores de drogas aos serviços de saúde

ISPUP estudou os hábitos de utilização dos serviços de saúde pelos consumidores de drogas a céu aberto do Porto.

Grande parte dos utilizadores de drogas de alto risco a céu aberto, da cidade do Porto, utiliza os serviços de saúde (gerais e especializados), conclui um estudo desenvolvido na Unidade de Investigação em Epidemiologia (EPIUnit) do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), que mostra que Portugal é um caso de sucesso na aproximação dos utilizadores de drogas de alto risco aos serviços de saúde. Ainda assim, mais de metade (52%) não frequenta os cuidados de saúde primários (centros de saúde), que são os serviços preventivos por excelência.

“Em Portugal, um país pioneiro na despenalização do uso de drogas com fortes estratégias de minimização dos riscos associados aos consumos, e com um sistema de saúde gratuito e universal, não existiam muitos estudos sobre a utilização efetiva dos serviços de saúde, por parte desta população”, explica André Tadeu, médico interno de saúde pública e investigador na EPIUnit do ISPUP.

“Por isso, quisemos avaliar os níveis de utilização aos serviços de saúde gerais (Hospitais e Centros de Saúde) e especializados (Centros de Respostas Integradas – CRI e carrinhas de redução de riscos e danos, etc.) por parte dos utilizadores de alto risco de drogas a céu aberto, na cidade do Porto. Tentámos também perceber quais as barreiras e os fatores que influenciam a maior ou menor utilização dos serviços”, acrescenta.

O estudo envolveu 321 indivíduos consumidores de drogas de alto risco a céu aberto, no Porto. Trata-se de uma amostra envelhecida (acima dos 45 anos), maioritariamente masculina e desempregada, o que vai ao encontro das estimativas europeias e nacionais para esta população. No fundo, é uma coorte de pessoas que é transversal a toda a Europa e que iniciou os consumos nas décadas de 80 e 90.

Entre os indivíduos que fizeram parte do estudo, 97,5% consumiam crack-cocaína, 67% utilizavam heroína, 58,3% tomavam metadona, 25% injetavam e 97% fumavam. No que diz respeito ao estado de saúde, a maioria (62,3%) apresentava problemas de saúde mental, dos quais 18% tinham ideação suicida ou/e alucinações; 35,5% tinham hepatite C e 16,6% estavam infectados com VIH.

Concluiu-se que a maioria (85,4%) dos utilizadores de drogas de alto risco a céu aberto foi, pelo menos uma vez, aos serviços de saúde nos últimos 12 meses. Destes, grande parte (67,9%) optou por dirigir-se aos serviços especializados. Uma fatia significativa (61,7%) disse ir ao Hospital, mas 52% mencionou não utilizar os Centros de Saúde.

“A evidência disponível sugere que, no longo prazo, os utilizadores de drogas de alto risco morrem mais e mais cedo do que a população geral, não por consequência direta dos consumos ou das doenças transmissíveis relacionadas com práticas de consumo de risco (VIH ou hepatites), mas pelas principais causas de morte da população geral, como doenças cerebrovasculares, tumores malignos, doenças do aparelho respiratório (pneumonias, doença pulmonar obstrutiva crónica), para as quais contribuem os principais fatores de risco controláveis, como o tabaco, o consumo excessivo de álcool, a alimentação não saudável, etc.”, refere André Tadeu. Segundo o investigador, “os cuidados de saúde primários são os serviços preventivos por excelência e com o maior potencial para reduzir a incidência e a severidade de doença, pelo que seria importante garantir uma maior utilização deste tipo de serviço”.

Quanto aos principais motivos para não se deslocarem aos centros de saúde, os participantes mencionaram não sentir necessidade e existirem serviços alternativos que respondem melhor às suas necessidades. Além disso, uma percentagem significativa não estava inscrita nos Centros de Saúde e outra não tinha médico de família. Também se constatou que quem toma metadona ou é VIH positivo utiliza menos estes serviços.

“Percebe-se que os utilizadores de drogas consideram que os serviços especializados ou os hospitais satisfazem melhor as suas necessidades, uma vez que estes prestam dois cuidados de saúde muito importantes para esta população: o fornecimento de metadona e o tratamento do VIH”, diz André Tadeu. No entanto, “acabam por negligenciar os cuidados de saúde primários e os médicos de família  que asseguram uma avaliação global ou holística do estado de saúde e educam para estilos de vida mais saudáveis e para a importância de reduzir e controlar os fatores de risco associados às já citadas principais causas de morte”.

Como aproximar os utilizadores de drogas de alto risco dos cuidados de saúde primários? “Por um lado, é preciso sensibilizar os utilizadores para a importância dos cuidados de saúde primários na promoção da sua saúde e bem-estar. Por outro, uma boa estratégia poderia também passar por uma maior aproximação dos centros de saúde aos utilizadores e por melhorar a referenciação de outros serviços para os centros de saúde”, sugere André Tadeu.

O estudo designado Access to health care among high-risk drug users in Porto utilization and barriers foi apresentado na 10.ª edição do “Fórum de Jovens Investigadores”, em Estocolmo, no âmbito da 10.º Conferência Europeia de Saúde Pública, onde foi premiado como melhor poster.

Vai agora ser disponibilizado um questionário online (no site usodrogas.pt) a um público mais novo, que consome drogas em contextos diferentes. O objetivo é conhecer uma franja de público com outras características e, no final, conseguir uma caracterização do acesso aos serviços de saúde pelos diferentes perfis de consumidores de drogas na cidade do Porto.