Paulo Martins da Costa

Paulo Martins da Costa (Pessoa)

Professor e investigador no Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar (ICBAS) e no Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) da U.Porto, Paulo Martins da Costa tem dedicado grande parte da sua carreira ao estudo das bactérias e dos fungos. Recentemente, esteve envolvido na descoberta de um novo composto – Neofiscalina A – cuja forte ação antibiótica pode vir a ser importante  no combate às infeções hospitalares provocadas por bactérias multirresistentes.

Médico veterinário desde 1994, este lisboeta “radicado” no Porto e apaixonado pela natureza, pela biologia e pela vida no campo começou por dividir a sua atividade entre a assistência clínica a espécies pecuárias e animais de companhia e a inspeção sanitária. Em 1999, passou também a partilhar esta experiência  com os estudantes de medicina veterinária do ICBAS, onde é professor auxiliar desde 2006 nas áreas da tecnologia e segurança alimentar. Mas foi durante o doutoramento, realizado no ICBAS, que retomou uma das questões que maior inquietação lhe tinham causado durante a sua vida profissional: quais as consequências biológicas do uso de antimicrobianos em animais de produção? Da procura de respostas surgiu a maioria das suas 44 publicações científicas, centradas essencialmente sobre potenciais vias de transmissão ao homem dos fenótipos resistentes selecionados pelos antibióticos. Pelo caminho, reuniu uma vasta coleção de microrganismos multirresistentes que têm sido preciosos para testar a eficácia antibiótica de vários compostos obtidos a partir de cianobactérias e fungos.

Paulo Martins da Costa, Laboratório de Microbiologia e Tecnologia Alimentar do ICBAS

Paulo Martins da Costa (o segundo a contar da esq.) com a equipa do Laboratório de Microbiologia e Tecnologia Alimentar do ICBAS / CIIMAR. (Fotos: DR)

Foi este trabalho, motivado pela “corrida contra o tempo” que a comunidade científica vem desenvolvendo na batalha contra as infeções microbianas, que levou o investigador a “cruzar-se” com o Neofiscalina A, um composto isolado a partir de um fungo marinho recolhido nos mares da Tailândia e estudado no Departamento de Química do ICBAS pelo professor Anake Kijoa. Realizado no âmbito do “Marbiotech”, um projeto concluído em 2015 e que envolveu uma equipa multidisciplinar no quadro do Laboratório de Microbiologia e Tecnologia Alimentar (composto por investigadores do ICBAS e do CIIMAR), o estudo permitiu ideitificar a forte ação inibitória do novo composto sobre bactérias multirresistentes responsáveis por infeções associadas aos cuidados de saúde. “A Neofiscalina A demostrou, também, ter uma boa capacidade para inibir a formação de biofilmes microbianos, um problema difícil de debelar em pessoas afetadas por determinadas patologias (e.g. fibrose quística) ou em pessoas com próteses ou a que tenham sido aplicados cateteres”m realça Paulo Martins da Costa.

Aprofundar o conhecimento sobre a atividade antimicrobiana da Neofiscalina A e abrir caminho até à sua eventual utilização médica é o próximo passo de um caminho que, nos próximos três anos, vai prosseguir através do projeto “Novelmar – novos compostos marinhos com aplicações médicas e biotecnológicas”, financiado pelo Norte2020.

Naturalidade?

Lisboa.

Idade?

47 anos.

De que mais gosta na Universidade do Porto?

De ainda não lhe ter encontrado os limites. Dentro de cada Unidade Orgânica, por toda a Universidade, através dos seus graduados ou através da infinidade de conexões que a UP mantém com outras instituições, podemos conhecer e realizar muito para além do imaginado.

De que menos gosta na Universidade do Porto?

Um fervor exagerado pela normalização (pedagógica, curricular, administrativa): gera eficiência, traz previsibilidade e facilita a mobilidade, mas condiciona, na mesma medida, a inventividade e a responsabilidade de pensar.

Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto?

Continuar a fazer a ponte entre o conhecimento, o mundo e o contexto local que a ajudou a fundar e a apoia incondicionalmente.

Como prefere passar os tempos livres?

Visitando os lugares e amigos da infância. A idade não perdoa!

Um livro preferido?

“Contos Maravilhosos” de Hermann Hesse. Em cada um dos textos podemos encontrar um pedaço de nós e de todos os livros que aqui gostaria de referir.

Um disco/músico preferido?

Qualquer um, desde que cantado pelo Caetano Veloso ou pela Elis Regina e com letras escritas pelo Leonard Cohen ou pelo Jacques Brel.

Um prato preferido?

Depende da fome… A circunstância de ensinar no domínio da tecnologia e segurança alimentar não me deixa outra alternativa.

Um filme preferido?

“Ratatui”. Entrei na sala de cinema de acompanhar as minhas filhas (e pagar o bilhete) e fiquei cativado: é divertido e criativo como deve ser o cinema, mas não deixa de nos interpelar, como é função da arte.

Uma viagem de sonho?

Todas aquelas em que me encontrei com as paisagens ou as obras de arte que, algures no passado, saltaram de um qualquer livro ou ilustração para o meu imaginário. Senti essa comunhão nos Alpes, em São Tomé e Príncipe, ou em Florença, frente ao Nascimento de Vénus de Botticelli.

Um objetivo de vida?

Resistir a tê-lo… Um objetivo daria uma motivação e um sentido concreto àquilo que faço, mas acabaria por reduzir muito a minha capacidade de olhar, interpretar e expressar.

Uma inspiração? (pessoa, livro, situação…)

A minha família, os estudantes, as pessoas que trabalham comigo e todos aqueles que se interessam pelo bem comum.

O projeto da sua vida…

Continuar a plantar árvores… As minhas filhas já estão crescidas e a vontade de escrever um livro desaparece à leitura de um verso de Fernando Pessoa ou de um parágrafo de qualquer romance de Dostoiévski.

Uma ideia para promover uma maior ligação entre a Universidade e a comunidade?

Saber onde mora essa comunidade. Visita-la com maior frequência, conhecer as suas necessidades e ajudá-la a conhecer e a superar os problemas que enfrenta.

  • disqus_s3eBtJ21Qh

    ATENÇÃO!!! A Neofiscalina A foi isolada no LABORATÓRIO DE QUÍMICA do ICBAS por SURADET BUTTACHON estudante do Sr. PROFESSOR ANAKE KIJJOA

  • Anake Kijjoa

    Fiquei espantado com a entrevista do meu colega Prof. Paulo Costa publicada na Página da Universidade do Porto. Na matéria dessa entrevista existem várias incorreções, provavelmente jornalísticas. Assim, esta minha intervenção destina-se apenas a um esclarecimento que considero necessário. De fato, a neofiscalina e outros estereoisómeros foram isolados de uma nova espécie do fungo terrestre da Tailândia (Neosartorya siamensis) pela Profª Tida Dethoup da Universidade de Kasetsart em Bangkok (que foi minha orientanda de doutoramento). No âmbito da colaboração do meu grupo com a Universidade de Kasetsart (Tailândia), o estudo dos compostos produzidos pela cultura deste fungo foi realizado no laboratório do qual sou Responsável (ICBAS), pelo meu estudante de doutoramento Suradet Buttachon, bolseiro da Tailândia. O trabalho de isolamento e elucidação estrutural e atividade antitumoral da neofiscalina e outros estereoisómeros já foi publicado na revista Tetrahedron em 2012 (Suradet Buttachon, Angsumarn Chandrapatya, Leka Manoch, Artur Silva, Luis Gales, Céline Bruyére, Robert Kiss, Anake Kijjoa (2012). Sartorymensin, a new indole alkaloid, and new analogues of tryptoquivaline and fiscalins produced by Neosartorya siamensis (KUFC 6349). Tetrahedron 68, 3253-3262).
    Só mais tarde quando o CIIMAR ganhou o Projeto Marbiotech (do qual o Prof. Vitor Vasconcelos foi coordenador) que eu, no âmbito da minha responsabilidade pelo estudo de fungos marinhos, contatei com a Profª Tida Dethoup (colaboradora do CIIMAR) para procurar este fungo em meio marinho. Em sequência, este fungo foi encontrado associado a um invertebrado no Mar de Andaman. Assim, em sequência do estudo desenvolvido para comparar o perfil químico das estirpes terrestre e marinha, o Doutor Suradet Buttachon, bolseiro de pós-doc do Projeto Marbiotech, sob minha supervisão, isolou e purificou a neofiscalina e outros derivados. Como o Prof. Paulo Costa também pertencia ao projeto Marbiotech, cedi a neofiscalina e outros derivados para serem testados no seu laboratório para avaliação da atividade antibacteriana. O trabalho resultante já foi publicado na revista Marine Drugs (Nelson M. Gomes, Lucinda J. Bessa, Suradet Buttachon, Paulo M. costa, Jamrearn Buaruang, Tida Dethoup, Artur. M. S. Silva and Anake Kijjoa (2014). Antibacterial and Antibiofilm Activity of Tryptoquivalines and Meroditerpenes from Marine-Deived Fungi Neosartorya paulistensis, N. laciniosa, N. tsunodae, and the soil fungi N. fischeri and N. siamensis. Marine Drugs 12, 822-839 (doi:10.3390/md12020822) em que fui autor correspondente.

  • Anake Kijjoa

    Como podem verificar nesta publicação que fui eu (Anake Kijjoa) que dei o nome neofiscalina a este composto. Além de neofiscalina, isolamos também outros compostos novos que dei nome epi-fiscalina e epi-neofiscalina:http://www.sciencedirect.com/…/pii/S0040402012002050

  • Anake Kijjoa

    Estas noticias me parecem o concurso da “Miss Universe” do ano passado. Aquela que foi coroada na primeira instância não foi a verdadeira vencedora mas foi por engano do MC. Gostaria que o jornalista da noticias da UP apurasse o fato que publicou e emendou os erros graves que foram cometidos.