Maria João Cardoso

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Desde 22 de abril de 2016 que os funcionários não docentes e não investigadores da Universidade do Porto têm uma nova Provedora. Foi nessa data que Maria João Rodrigues dos Santos Leite Cardoso, técnica de informática da Faculdade de Economia (FEP), tomou posse do cargo para o qual foi eleita pelo Conselho Geral da U.Porto.

Na verdade, esta não é a primeira vez que Maria João Cardoso se dedica a funções de defesa e promoção da melhoria das condições laborais na U.Porto. Em 2013, fez parte do grupo constituinte e do secretariado executivo da primeira Comissão de Trabalhadores da Universidade do Porto. Mais recentemente, no âmbito da discussão do Plano Estratégico 2020 da instituição, foi autora da proposta “Dimensão Interna da Responsabilidade Social na U.Porto – um projeto de implementação”, que tinha como principal propósito a de criação de um gabinete dedicado ao bem-estar e ao cuidado da e para a comunidade académica.

Este é, aliás, o “projeto de vida” declarado desta portuense de 50 anos de idade que trabalha na FEP desde 1999. Agora, no papel de Provedora dos Funcionários Não docentes e não investigadores da Universidade do Porto, pretende exercer “Uma Provedoria Ativa e de Proximidade” – o mote da sua candidatura ao cargo – preterindo “a postura passiva e reativa que se esgota no cumprimento das obrigações legais e regulamentares do papel do Provedor”. Para Maria João Cardoso, “a humanização das instituições requer contacto direto com as pessoas e atenção às suas necessidades, no total respeito pela sua privacidade e dignidade, e estes serão os princípios com os quais me proponho servir os trabalhadores da nossa Universidade”.

– De que mais gosta na Universidade do Porto?

Da diversidade em termos humanos e de competências. Da capacidade da Universidade refletir a própria Cidade, nos seus modos, no seu apego à tradição, às tertúlias que a “repensam” continuamente e a fazem avançar. Da “identidade própria”, genuína e não aparente que nos faz sentir membros orgulhosos de uma mesma “Família”.

– De que menos gosta na Universidade do Porto?

Da enorme quantidade de “Regulamentos”. Apesar de ser apologista da autonomia administrativa e financeira das diferentes Escolas, considero que a proliferação de regulamentos internos e a sua interpretação, nem sempre coincidente, é uma das principais causas da diferenciação de condições laborais dentro da mesma Universidade.

Acresce que, parte desta regulamentação de procedimentos, não reflete benefícios concretos para as Pessoas, verifico até, em certos casos, que retira a possibilidade de acesso a salvaguardas, para casos específicos, devidamente consagradas pelos legisladores na elaboração da Lei. Temos um bom exemplo deste facto no que concerne à conjugação entre a vida profissional e familiar, um direito constitucional que considero necessário garantir e que caracteriza as Instituições mais desenvolvidas e as Sociedades mais evoluídas.

Neste aspeto, temos ainda um longo percurso a fazer na Universidade.

– Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto? 

Uma maior humanização da Universidade. Parece simples, mas não o é de facto. Atualmente estamos sujeitos a grandes desafios para garantir a qualidade da instituição: cumpre-nos garantir a competitividade, a notoriedade e os lugares cimeiros, cada vez com menos recursos financeiros. Neste percurso, do qual não queremos nem podemos abdicar, ficam negligenciados muitos aspetos diretamente ligados às Pessoas. Penso que devemos fazer um trabalho sério de “reflexão interna” quanto à forma como cuidamos de quem faz da Universidade do Porto aquilo que ela é.

– Como prefere passar os tempos livres?

A meditar, quando preciso de tomar decisões. A costurar, quando não quero pensar em nada.

– Um livro preferido?

Todos os de Camilo. E de todos eles, “A queda de um Anjo”. Esta predileção por Camilo tem obrigado muitos amigos chegados a correr os alfarrabistas à procura das obras que ainda não li. Confesso que algumas destas obras são lidas de máscara cirúrgica, a segurar nas folhas que ao menor toque se desfazem.

– Um disco/músico preferido?

Puccini, claro! Todas as óperas mas ouvir La Bohème faz-me sempre usar muitos lenços de papel.

– Um prato preferido?

Polvo Assado no Forno.

– Um filme preferido?

Não um, mas três: Cinema Paradiso, O Tigre e a Neve e Deus Branco.

– Uma viagem de sonho (realizada ou por realizar)? 

Todas as que fiz e as que ainda espero fazer para Itália. Sem dúvida a minha segunda Pátria.

– Um objetivo de vida?

Conseguir ser uma mais-valia na vida dos que se cruzam no meu caminho.

– Uma inspiração? (pessoa, livro, situação…)

Sem qualquer hesitação: Jesus Cristo. Não na dimensão religiosa, mas em toda a Sua dimensão humana.

– O projeto da sua vida…

Levar a cabo a criação de um Gabinete de Responsabilidade Social Interna na Universidade. A U.Porto, pela sua extraordinária condição de Universidade de referência, pelas competências que conglomera, pela sua diversidade de valores, traduz-se em terreno fértil para a implementação de um projeto de responsabilidade social de dimensão interna, pioneiro em Universidades Portuguesas mas em sintonia com realidades já vividas em congéneres de renome internacional.

Temos já uma posição bem marcada e consolidada no panorama da responsabilidade social externa. Um exemplo claro são as bolsas de voluntariado de estudantes e docentes, assim como as ações de incentivo ao desporto universitário, as iniciativas dos SASUP em benefício dos Estudantes e a preocupação ambiental, cada vez mais sentida, na Universidade. No entanto, há uma ausência quase total de práticas de responsabilidade social interna que incorporem os princípios que potenciam e enriquecem as relações entre os seus trabalhadores (docentes e não docentes). Gostaria muito de fomentar a criação de uma bolsa de serviços, em regime de voluntariado e pro bono, promovendo a interajuda entre todos os colaboradores, num ambiente de partilha entre quem fornece e quem necessita, de forma abrangente e que incremente a ideia de que todos, sem exceção, são úteis à Universidade e aos membros da Comunidade U.Porto.

Já um “sonho” que gostaria de ver realizado seria o de ver a nossa Universidade com capacidade de disponibilizar, aos seus trabalhadores, um Infantário e um Centro de Convívio para os aposentados da nossa Universidade.

– Principais medidas a implementar como Provedora?

A minha proposta foi, desde o primeiro minuto, preterir uma postura passiva e reativa que se esgota no cumprimento das obrigações legais e regulamentares do papel do Provedor, dando particular enfase a uma outra forma de prover, com recomendação e apelo a valores e princípios éticos da sociedade, como o bem-estar dos trabalhadores não docentes, pela melhoria da comunicação entre todos e das condições colocadas à sua disposição.

É minha intenção visitar regularmente as Entidades Constitutivas da U.Porto para contacto direto com Todos. A garantia de salvaguarda dos direitos e interesses dos trabalhadores não se afigura facilitada sem a proximidade do Provedor à informação e ao conhecimento da realidade concreta na sua área de atuação. Procurar conhecer e refletir sobre essa realidade implica, muitas vezes, estar fisicamente presente. A observação in loco de possíveis focos de conflitualidade e tensão e, ao mesmo tempo, uma perceção clara das potencialidades de melhoria existentes, permitirá ao Provedor ter uma atuação ativa para, em sede própria, sugerir ou recomendar práticas focadas nos trabalhadores, no sentido de lhes proporcionar um ambiente de trabalho que os satisfaça, motive e incentive, como regalia de pertença à Universidade.

Desta forma, torna-se ademais facilitada a busca das soluções concretas, adaptadas às situações constatadas, no sentido de evitar o conflito ou propiciar a resolução atempada dos problemas. Também com esse objetivo, irei trabalhar para o estabelecimento de relações de cooperação, promovendo encontros e reuniões regulares com os trabalhadores não docentes e os seus representantes e procurarei acautelar a sensibilização dos órgãos de governação, fornecendo informações necessárias à tomada de decisões ajustadas à realidade dos trabalhadores, apoiando ambas as partes na procura de soluções.

De facto, acredito que o poder provedoral advém, apenas e só, da capacidade de entender e sentir o “Outro”, materializando pela “palavra” o caminho para a salvaguarda dos direitos fundamentais e da dignidade humana, sustentados em alicerces de independência, de imparcialidade, de razoabilidade, de bom senso, e porque não, tantas vezes de esperança.