Maria Helena Braga

Maria Helena Braga é docente e investigadora da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e já faz parte desta família há mais de 20 anos. Quando era criança sonhava em ser arquiteta, mas aos 15 anos, o livro “Um pouco mais de azul”, de Hubert Reeves, começou a fazê-la desenhar o percurso que vem traçando até aos dias de hoje.

No seu percurso académico valorizou sempre a ciência criativa e o prazer do trabalho em conjunto, sendo da opinião que “parte da criatividade se perde quando cada investigador faz um pedaço do trabalho, mas não há ninguém que veja a paisagem toda. Quero poder fazer sempre o que me divirta”, diz.

O trabalho que se encontra a desenvolver atualmente, relacionado com baterias, partes de baterias e condensadores, é um exemplo dessa combinação entre criatividade e trabalho colaborativo. Em causa está a criação de uma nova geração de baterias sólidas, capazes de armazenar muito mais energia do que as de ião de lítio, sendo ainda mais seguras, mais duradouras e menos poluentes. A investigação, que está a criar grande entusiasmo junto da comunidade científica internacional, tem sido desenvolvida numa parceria da U.Porto com a U.T.Austin, no Texas (EUA), uma ligação que, para Helena Braga, tem sido “um verdadeiro prazer”.

Naturalidade?

Portuguesa

Idade? 45 anos.

– De que mais gosta na Universidade do Porto?

O que gosto mais é da liberdade que tenho na U.Porto e especialmente no meu Departamento de Engenharia Física. Em Portugal e porque fui/sou financiada pela FCT ainda me é possível fazer Ciência com pouco. Ou seja, como o financiamento não vai todo para salários, há equipamento que fica de um projeto para o outro e que permite fazer investigação preliminar que poderá ser financiada posteriormente.

– De que menos gosta na Universidade do Porto?

O que gosto menos é a falta de incentivo. Não há recompensa que não seja sobre a forma de reconhecimento tácito e mesmo esse processo é lento…

Parte dos meus colegas e eu estamos exatamente na mesma posição na carreira na FEUP em que estávamos quando entrámos, na mesma que os que entram agora. Por exemplo nos EUA, ninguém acredita que se possa ainda ser Prof. Auxiliar ao fim de 14 anos e não se ser um mau profissional. A U.Porto precisa de ter mais flexibilidade para motivar de alguma maneira quem faz; apesar de que quem faz, faz porque encontra razões no gozo que lhe dá fazer e não pelo incentivo que possa vir a receber.

– Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto?

A criação de uma bolsa de “tempo de investigação” (tempo de lecionação mais reduzido) com a respetiva alocação de laboratório se necessário.

– Como prefere passar os tempos livres?

A calcorrear o Porto com o meu marido e filho, especialmente na época de Natal…

– Um livro preferido?

Tenho muitos livros preferidos mas não citando os de Ciência:

“Pedro Páramo” Juan Rulfo; “Memorial do Convento” José Saramago; “Temporal” Sergio Astorga; “O Nome da Rosa” Umberto Eco; “Entanglement” Joana Espain; “Mensagem” Fernando Pessoa (e muitos outros).

– Um disco/músico preferido?

Gosto muito de música e trabalho melhor ouvindo música. Excluindo os clássicos: Chico Buarque na sua obra prima “Construção” porque é dos melhores poemas/fotografia de uma sociedade injusta e muitas vezes assustadora.

– Um prato preferido?

Trouxas de batata como a minha avó Renata fazia. Gosto muito de comer por isso tenho outros pratos favoritos: Confit d’Oie (com batatinha frita na banha do ganso); taquitos de huitlacoche e mole de pato do Restaurante “Frida” no Porto e todos os bacalhaus bem regados com o que de melhor temos, o azeite!

– Um filme preferido?

“Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore

– Uma viagem de sonho ? 

A realizar: muitas pela América Latina e em particular pelos vestígios pré-hispânicos. Ir à India, Petra na Jordânia, Galápagos no Equador e Florença na Itália (aonde nunca estive). Gostaria de ir ao deserto do Atacama no Chile para ver os lagos secos de sais de Lítio e os telescópios recentemente construídos.

Realizadas: ao México (Cidade do México, Oaxaca, Puebla…), aos canyons Americanos (Bryce, Arches, Grand Canyon, Canyonlands) e ao Rio de Janeiro.

– Um objetivo de vida?

Ser melhor pessoa todos os dias.

– Uma inspiração? (pessoa, livro, situação…)

Muitas inspirações… não vou mencionar metade…Quem me levou a optar por Física: “A Hora do Deslumbramento” de Hubert Reeves. Como Cientista completa primeiro e mulher: Marie Curie. Como Pessoa completas (vertente artística e científica): Leonardo da Vinci. Como Cientistas completos: Michael Faraday, James Clerk Maxwell, Josiah Willard Gibbs. Como Cientistas completos contemporâneos: John B. Goodenough e John W. Cahn. Como inventores: Thomas Alva Edison e Nikola Tesla. Como rebeldes: Cristo, Martin Luther King Jr, Rosa Parks, mulheres “sem nome” (ou quase) que foram Cientistas ou que lutaram pelos direitos das mulheres, vários músicos. Como resiliente/trabalhador/fonte de cultura: o meu filho António. Como artista/trabalhador/fonte de cultura: o meu marido Sergio. A Joana Oliveira, o Jorge Ferreira, o Andrew Murchison, a Sandra Costa, a Manuela Carrulo inspiram-me por diversas razões.

– O projeto da sua vida…

Ser melhor pessoa todos os dias. Trabalhar no que me diverte. Trabalhar em equipa leal com 5-6 pessoas e em laboratório de sonho. Ver as pessoas que gosto bem. Contribuir para a igualdade de oportunidades.

– Se pudesse alcançar qualquer sonho relacionado com o seu trabalho, qual seria a primeira escolha?

Gostaria que as baterias que fazemos fossem usadas por muitas pessoas. Gostaria que permitissem a substituição de automóveis movidos a gasolina por automóveis elétricos.

Gostaria que uma criança, mulher ou homem, pudesse estudar melhor porque armazenou na bateria, durante o dia, a energia que vai poder usar quando o sol se põe.

  • Ricardo Wragg Freitas

    Por coincidência também tenho 45 anos e também li o “Um Pouco Mais de Azul”por volta dos 15 anos e também foi um livro que me marcou.