Manuel João Monte

Manuel João Monte dá aulas na FCUP desde 1980. (Foto: DR)

Docente do Departamento de Química e Bioquímica da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), Manuel João Monte lançou-se recentemente como escritor. Para lá dos papers, abraçou o desafio da divulgação científica sob a forma de uma peça de teatro, inspirada nos 150 anos da Tabela Periódica, que se celebram em 2019. Foi a partir daí que idealizou “O Bairro da Tabela Periódica”, cujo livro foi apresentado em junho deste ano.

Com um percurso de cerca de 40 anos dedicados à FCUP e à Química, foi nesta faculdade que Manuel João Monte se licenciou (1981) e doutorou-se (1990), com a especialidade de Química e Física. Professor Associado do Departamento de Química e Bioquímica da FCUP desde 2001, desempenhou também vários cargos de gestão universitária, incluindo os de presidente do Conselho de Representantes, vice-presidente do Conselho Científico e presidente do Departamento de Química da FCUP. Foi também membro do Conselho Geral da U.Porto

Enquanto investigador, está ligado ao Centro de Investigação em Química da U.Porto (CIQUP), onde coordena o Grupo de Termodinâmica Molecular e Supramolecular, tendo publicado mais de 100 artigos em revistas científicas internacionais. Mas não só… Amante da escrita, à qual dedica parte dos tempos livres, foi assim que conciliou as suas várias paixões: enquanto à semana escrevia um artigo sobre a área da termodinâmica, ao fim de semana dedicava-se a desenvolver um enredo que envolveu os 118 elementos da tabela periódica.

O teatro não é um mundo novo para Manuel João Monte que já tinha antes traduzido para português as peças Oxigénio de Carl Djerassi e Roald Hoffmann e Falácia de Carl Djerassi, editadas pela U.Porto Edições e levadas à cena, respetivamente, em 2006 e 2011, pela companhia Seiva Trupe, no Teatro do Campo Alegre. Agora será a vez de ir a cena a sua própria peça de teatro com datas de estreia marcadas para setembro e outubro, no Porto, em Lisboa e em Coimbra.

Com um tom bem-humorado, que se sente na sua escrita, o docente revela que também gosta de cozinhar e até nos deixa a receita do seu prato favorito…

– Naturalidade? Vila do Conde

– Idade? 69 anos

– De que mais gosta na Universidade do Porto?

Da diversidade de saberes.

– De que menos gosta na Universidade do Porto?

Da ainda incipiente interação entre os diferentes saberes.

– Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto?

Uma gestão que permita e estimule uma real interação entre as diferentes áreas científicas e entre estas e as humanidades.

– Como prefere passar os tempos livres?

Gosto de cozinhar, fotografar, ler, passear com a Mary (au! au!) em passo acelerado, dar uns toques no piano ou na guitarra…e teatro (não demasiado experimental). Recentemente, reparei que também gosto de escrever outras coisas para além dos papers.

– Um livro preferido?

Tenho o vício de comprar livros (a um ritmo superior à disponibilidade que tenho tido para os ler). Houve livros que li e que me marcaram em idades próprias para o fazer (Exemplos: David Copperfield e A Ilha do Tesouro). Das leituras mais recentes de que gostei, destaco “Life Itself”, de Robert Rosen, “The Hidden Life of Trees” de Peter Wohlleben e “Homo Deus” de Yuval Harari.

– Um disco/músico preferido?

São muitos. Por exemplo: Pedro Abrunhosa, Miles Davis, ‎Freddie Mercury‎, Mark Knopfler, Ludovico Einaudi, Lana del Rey.

– Um prato preferido?

Perú com grão à João (uma criação dos tempos de solteiro, em que aprendi a cozinhar e descobri que gostava):

Corta-se um bife de perú aos quadrados pequenos, tempera-se com um pouco de sal, e deixa-se marinar 5 minutos em vinho do Porto e sumo de limão (3:1). Frita-se (3 minutos) num pouco de óleo quente os pedaços de peru escorridos. Junta-se o molho da marinada, algumas folhas de estragão e grão de bico (em lata). Mexe-se tudo e (para quem gostar, como eu) junta-se natas com um pouco de açafrão das índias, mexendo sempre. No total não demora mais de 10 minutos. Fácil, rápido, barato e delicioso.

– Um filme preferido?

“Carry, vestida para Matar” de Brian de Palma, EUA, 1980 (um filme ao estilo de Hitchcock que trata de um problema atual – o bulling juvenil…).

– Uma viagem de sonho?

Não sonho com viagens, mas gostei muito da última, no passado mês de junho, a São Petersburgo, onde participei num encontro científico.

– Um objetivo de vida?

1. Descobrir o que é a vida; 2. Entender porque é que existe vida. (Condições: Não ficar frustrado se não conseguir algum destes objetivos, ou preparar-se para receber um Nobel se conseguir).

– Uma inspiração?

Os estágios na Universidade de Utrecht durante o meu trabalho de doutoramento.

– O projeto da sua vida…

Não tenho.

– Escreveu o livro “O Bairro da Tabela Periódica”, contando com cada um dos 118 elementos da tabela como os seus residentes. Se tivesse de destacar um dos seus residentes, um elemento da tabela periódica, qual escolheria e porquê?

Respondo com o que referi no livro, através da fala da Administradora do condomínio do Bairro: “Ai, o carbono! As formas e funções tão diferentes em que existe, ou que exerce, no seu estado puro! Haverá contraste mais forte do que entre um pedaço de carvão que alimenta a fogueira de um churrasco e o resplandecente diamante (the girl’s best friend) que ornamenta um anel, ou a grafite do lápis que usamos na escrita e no desenho?” Para não falar de outras importantes formas de carbono, recentemente descobertas, como a do esférico futeboleno (e outros fulerenos), que justificou o prémio Nobel da Química, em 1996, e a do delgadíssimo — mas ainda assim fortíssimo — grafeno, que fundamentou o prémio Nobel da Física em 2010”. A esta diversidade enquanto elemento, junta-se a sua enorme versatilidade traduzida na formação de diversos compostos químicos (muitos deles ligados à vida) de que se conhecem dezenas de milhões.