José Eduardo Guimarães

Com uma carreira de mais de 40 anos ligados à Medicina, José Eduardo Guimarães tem-se também notabilizado pela sua obra poética. (Foto: DR)

“Escrever é cuidar, sem dar por isso, de quem está do outro lado da página”. O mesmo poderia ser dito acerca da medicina. Natural de Matosinhos, José Eduardo Guimarães é um dos nomes incontornáveis da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), instituição a que dedicou mais de 40 anos como professor e investigador.

Licenciado (1974), doutor (1988) e agregado (1994) pela FMUP, José Eduardo Guimarães, obteve, na mesma instituição, os graus de professor auxiliar (1988), professor associado (1996) e professor catedrático (2008), tendo ainda exercido vários cargos administrativos, nomeadamente, como presidente da Assembleia de Representantes (atual Conselho de Representantes). Mais recentemente, partilhou com a audiência o seu notável percurso científico e académico na sua última lição na FMUP, intitulada “Dois Paradoxos, Três Paradigmas e Uma Parábola”.

Na sua passagem pelo IPO do Porto, integrou a equipa que realizou o primeiro transplante de medula no Norte do país, em 1989. Foi também líder do grupo de Hematopoiese e Hematologia Oncológica do IPATIMUP entre 1988 e 2003. Trabalhou no Royal Free Hospital and School of Medicine (1981-1985) e no Jefferson Cancer Center da Thomas Jefferson University (1992), onde mais tarde lhe foi conferida a categoria de Adjunct Professor do Departamento de Medicina (2002). É também diretor do Programa de Transplantação de Células Estaminais Hematopoiéticas desde 2001.

No ramo hospitalar, realizou o Internato Geral e da Especialidade no Centro Hospitalar Universitário de São João, por onde exerceu diferentes cargos, desde Diretor Clínico, Diretor de Serviço, Chefe de Serviço de Hematologia Clínica e Presidente do Conselho de Administração. Atualmente, integra o quadro de especialistas do Serviço de Hematologia deste hospital, função que desempenha desde 1983.

Gratificado com vários prémios e distinções, foi o investigador principal de vários projetos e ensaios clínicos, assim como orientador e coorientador de estudantes de doutoramento e mestrado. É autor (e coautor) de mais de 140 publicações, livros e capítulos de livros e de inúmeras comunicações, posters e moderações de sessões ou de mesas-redondas.

Participa como membro em várias sociedades científicas e associações médicas nacionais e internacionais, tendo sido membro fundador da European Hematology Association (EHA) e da International Academy for Clinical Haematology (IACL) e presidente da Sociedade Portuguesa de Hematologia de 2011 a 2017.

A paixão pela escrita esteve sempre lado a lado com a medicina e a inspiração por Fernando Pessoa fê-lo adotar o pseudónimo de Martim Afonso de Redondo, tendo já publicado três livros de poesia (“Antes e Depois do Cais de Seixas”, “Nos Interstícios da Alma e Canções de Desamor” e “A Morte de Martim Afonso de Redondo”).

Naturalidade? Matosinhos

Idade? 70 anos

– De que mais gosta na Universidade do Porto?

Cosmopolitismo, espírito de corpo e dinamismo intelectual e empresarial.

– De que menos gosta na Universidade do Porto?

De alguma tendência burocrática.

– Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto? 

Internacionalizar-se, internacionalizar-se, internacionalizar-se …

Como prefere passar os tempos livres?

A viajar e a ler.

– Um livro preferido?

“Never Let Me Go” de Kazuo Ishiguro, “1984” de George Orwell, “O Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro e muitos, muitos mais.

 – Um disco/músico preferido?

De Beethoven: Concerto para Piano e Orquestra nº5 e Sinfonias nº 6 e 9. De Chopin: Concerto para Piano nº 1. E de Mozart: Concerto para Piano nº 21.

– Um prato preferido?

Cozido à Portuguesa; Rojões à moda do Minho e Lampreia à Bordalesa.

– Um filme preferido?

Il Gattopardo, de Visconti.

– Uma viagem de sonho? 

Realizadas: Argentina, Chile (Patagónia e Terra do Fogo) e Islândia.

A realizar: Alasca e Antártida.

– Um objetivo de vida?

A Medicina e a Ciência. E claro, a Escrita.

– Uma inspiração?

Fernando Pessoa e muitos cientistas da minha área.

– O projeto da sua vida…

O desenvolvimento do Serviço de Hematologia Clínica do Centro Hospitalar Universitário de São João nas suas várias vertentes: clínica, científica e pedagógica.

– Qual a importância da poesia e da escrita na sua vida?

Escrever é como respirar (embora tenha passado momentos da minha vida sem respirar). O poeta é um predador de emoções, um provocador dos sentidos e um perguntador de afetos. Escrever é cuidar, sem dar por isso, de quem está do outro lado da página.