João Ferraz

Se dependesse apenas de João Ferraz, a política devia “deixar de ser uma carreira para voltar a ser um reconhecimento dos méritos ao longo da vida profissional”. Esta é apenas uma das convicções que este leitor compulsivo de George Orwell faz por vincar aos 19 anos, os dois últimos passados nas cadeiras do curso de Direito da Faculdade de Direito da Universidade do Porto (FDUP). Em breve, terá também a oportunidade de defender as suas ideias junto dos deputados do Parlamento Europeu, em Bruxelas, enquanto co-autor de um dos ensaios premiados no âmbito do concurso “25 de abril: O futuro da democracia em Portugal e na Europa”.

Natural de Gondomar, João chegou à FDUP em 2012, depois de 12 anos passados no Colégio Paulo VI, na sua terra nata. E não poderia ter começado melhor. Logo no primeiro ano obteve a melhor média do curso (16,2 valores), o que lhe valeu a presença entre os vencedores dos Prémios Incentivo da U.Porto 2014, atribuídos no passado dia 21 março, durante as celebrações do Dia da Universidade.

Já em abril, João Ferraz, em parceria com Gil Valente Maia (também ele estudante da FDUP), foi um dos premiados pela Antena 1 e pela RTP numa iniciativa que desafiava os participantes (jovens entre os 14 e os 26 anos que frequentem o ensino secundário ou superior em Portugal) a elaborar um ensaio inédito sobre o futuro da democracia a nível português e europeu. E que futuro será esse? “A democracia não pode ser, como hoje aparenta, composta por um jogo constante de interesses entre a classe política e a população”, defendem os estudantes, para quem “o primeiro passo para o futuro deve ser garantir uma efetiva representação da população por parte dos órgãos cimeiros do país, e um papel fundamental dos partidos políticos na efetivação da vontade popular”. Para o que aí vem fica ainda uma certeza: “o futuro de Portugal será eminentemente europeu”.

Naturalidade?

Gondomar.

Idade?

19 anos.

– De que mais gosta na Universidade do Porto?

Na Universidade do Porto, gosto principalmente da preocupação que há em motivar constantemente os alunos, e o facto de, a meu ver, estes se identificarem com os valores da U.Porto, nomeadamente os da procura da excelência, do mérito e do conhecimento. À conversa com vários professores, já muitos me disseram que o melhor que esta Universidade tem são os seus alunos, e, embora esta tenha que ser observada no seu conjunto, nós tentamos fazer, e penso que com sucesso, o nosso trabalho, pelo que a U.Porto deve continuar com estes incentivos.

– De que menos gosta na Universidade do Porto?

Muitas vezes, do excesso de burocracia que é exigida para as mais diversas situações. Um dos princípios do Direito que nos são ensinados na faculdade é precisamente o da simplicidade. Se este estivesse mais presente, certamente que tudo fluiria mais facilmente.

– Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto? 

A U.Porto deve esforçar-se para que os seus estudantes não tenham o desejo de, terminado o curso, emigrarem. Desta forma, seria positivo que fossem captados alguns estudantes para integrarem os quadros das respetivas faculdades, o que seria um incentivo extra ao trabalho e uma forma de poupar recursos.

– Como prefere passar os tempos livres?

De muitas formas. Gosto de estar com a minha família, com a minha namorada e com os meus amigos, gosto de fazer desporto, de ler, de jogar PlayStation e de ir ver o Futebol Clube do Porto a jogar (e a ganhar, de preferência).

– Um livro preferido?

“Animal Farm”, de George Orwell; “A cidade e as serras”, de Eça de Queirós.

– Um disco/músico preferido?

Gosto imenso dos Dire Straits e dos Guns and Roses, por um lado, de Jack Johnson e Jason Mraz, por outro, e ainda de Rui Veloso e dos Xutos e Pontapés.

– Um prato preferido?

Picanha e Francesinha.

– Um filme preferido?

“O Gladiador”, de Ridley Scott.

– Uma viagem de sonho (realizada ou por realizar)? 

Fazer os EUA de um lado ao outro, pela route 66, com a minha namorada e os meus amigos (por realizar)

– Um objetivo de vida?

Ser feliz, obviamente. Construir uma família sólida, ter sucesso a nível profissional e ser sempre jovem a nível intelectual.

– Uma inspiração? (pessoa, livro, situação…)

Os meus pais, a minha irmã e a Íris, que são as pessoas que mais gosto neste mundo.

– Uma ideia para promover a democracia na Europa/Portugal?

A democracia tem que ser transparente, com o risco de falhar. Assim, todas as partes políticas devem fazer a sua função para que haja uma efetiva representação dos cidadãos nos órgãos mais altos da vida política. Está na altura da política deixar de ser uma carreira para voltar a ser um reconhecimento dos méritos ao longo da vida profissional, e, assim, um privilégio.

Para que a vida de deputado seja “a melhor profissão do mundo” como disse Salgado Zenha a Manuel Alegre, na assembleia constituinte, e como tão bem o meu colega Gil Maia se lembrou de referir no ensaio que fizemos para o concurso “25 de Abril: o futuro da democracia em Portugal e na Europa”, é preciso que ela seja feita com sentido de responsabilidade, e tendo sempre como pano de fundo o interesse comum e a vontade dos cidadãos.

A nível Europeu, é necessário que os Estados se esforcem para ultrapassar as diferenças e as diversidade que se colocam, devendo elevar como desígnio fundamental a garantia dos direitos fundamentais dos – desde Maastricht – denominados “cidadãos europeus”.