Carla Sá Couto

Carla Sá Couto, investigadora do CINTESIS e diretora do Centro de Simulação Biomédica da Faculdade de Medicina da U.Porto (FMUP), foi recentemente nomeada presidente da Comissão Científica da SESAM – Sociedade Europeia de Simulação Aplicada à Medicina, um cargo que aceitou “com muita honra” e com objetivos bem definidos, que passam pela internacionalização, pela estandardização de processos e pela atração de outras especialidades para a área da simulação.

Com 39 anos de idade, casada, com duas filhas, Carla Sá Couto tem um extenso currículo na área da investigação e da simulação biomédica. Integra a equipa do CINTESIS desde 2010, pertencendo ao grupo In4Health e à Linha de Investigação “Data & Methods Research”, liderada por João Bernardes.

A investigadora é responsável por uma série de projetos, entre os quais se destaca o CPR – Personal Trainer, desenvolvido no âmbito desta que é a segunda maior Unidade de I&D da U.Porto. O objetivo é criar um simulador que promova a autoaprendizagem e complemente ou constitua uma alternativa de elevada qualidade aos métodos tradicionais de ensino e treino de competências em ressuscitação cardiopulmonar (CPR), uma vez que vários estudos mostram que estas manobras continuam a ser feitas muitas vezes de forma ineficaz, provavelmente devido a um treino irregular e ineficiente.

Licenciada em Matemática Aplicada à Tecnologia na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, Carla Sá Couto fez o Mestrado em Engenharia Biomédica na Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP). Em 2009, concluiu o Doutoramento na mesma área, tendo-se especializado em simulação clínica. Fez parte da equipa que deu à luz o Lucina Childbirth Simulator (comercializado pela CAE Healthcare), um simulador usado atualmente em todo o mundo para treino em emergências obstétricas. É, desde 2014, diretora do Centro de Simulação Biomédica da FMUP, onde também dá aulas. É ainda presidente e voluntária da Associação Portuguesa de Epidermólise Bolhosa (DEBRA Portugal), uma patologia genética rara que afeta cerca de 90 doentes em Portugal.

– Do que mais gosta na Universidade do Porto?

Gosto desta multidisciplinaridade, desta proximidade que existe. Mesmo estando fisicamente separados, temos uma proximidade com as outras escolas e faculdades que nos torna muito ricos. Facilmente conseguimos contactar os colegas, há uma abertura muito grande nas diversas áreas. Esta proximidade entre as várias unidades orgânicas da Universidade torna-nos mais fortes e potencia colaborações que são imprescindíveis hoje em dia.

– Do que menos gosta na Universidade do Porto?

Desde que estou com um cargo de direção, tenho experienciado algumas dificuldades burocráticas. Acho que a Universidade tem de trabalhar para agilizar os procedimentos administrativos. Às vezes há vontade e há meios, mas os procedimentos restringem a concretização de determinadas coisas. Há uma centralidade exagerada destes processos administrativos a nível da Reitoria. Penso que as unidades orgânicas deviam ser mais independentes porque têm de passar por inúmeros – demasiados – níveis de decisão.

– Uma ideia para melhorar a Universidade do Porto?

A Universidade já tem algumas iniciativas muito importantes para se aproximar da comunidade, como a Mostra da U.Porto, que tem sempre um grande sucesso e este ano bateu recordes, mas temos de fazer mais, como receber os estudantes mais jovens para os estimular a escolher áreas em que se calhar nunca tinham pensado. Devemos pensar não só na educação, mas também na formação, isto é, como capacitar o público em áreas que são fundamentais para o seu dia a dia. Gostaria de concretizar um projeto de mass training em suporte básico de vida para a população em geral, sobretudo pessoas que lidam com crianças, idosos ou pessoas mais frágeis. Qualquer pai/educador deveria saber fazer estas manobras.

– Como prefere passar os tempos livres?

Com as minhas filhas e marido, ao ar livre.

– Um livro preferido?

Tenho dois muito diferentes, ambos lidos na minha adolescência: O Diário de Anne Frank e The Great Gatsby, de F. Scott Fitzgerald.

– Um disco/músico preferido?

A música é uma parte importante do meu bem-estar. Preciso dela para me senti bem e trabalhar melhor. Gosto muito dos Coldplay e dos nossos Miguel Araújo e António Zambujo.

– Um prato preferido?

Qualquer um com peixe grelhado e legumes salteados (isto para não falar de doces, que são a minha perdição)!

– Um filme preferido?

A Vida é Bela”. Vi-o pela primeira vez antes de ser mãe e já revi-o várias vezes depois de o ser. É um sentimento grandioso a dedicação de um pai a um filho.

– Uma viagem de sonho? 

Tenho várias… Mas gostaria muito de conhecer a Austrália e a Nova Zelândia.

– Um objetivo de vida?

Contribuir para o bem-estar dos outros, não esquecendo de ser feliz.

– Uma inspiração?

Tenho várias. Desde os meus pais que me ensinaram desde sempre a enfrentar os desafios de frente, ao meu marido, pelo apoio incondicional, até às minhas filhas que todos os dias me inspiram para ser uma pessoa melhor.

– O projeto da sua vida…

Tenho dois grandes projetos: a Simulação Biomédica e a Debra Portugal.O primeiro por motivação profissional, por saber que é uma ferramenta pedagógica que irá mudar o ensino e o treino em saúde, melhorando os cuidados e a segurança do doente.  O segundo por motivação pessoal, por saber o que é de conviver com uma doença rara, com a falta de informação e cuidados adequados. Sendo mãe de uma criança com epidermólise bolhosa, fui confrontada com desafios inimagináveis e sem um suporte que me oferecesse apoio ou esclarecimento sobre as inúmeras dúvidas que tinha. Embora a minha filha tenha um subtipo leve, esta patologia pode ser extremamente incapacitante e dolorosa, levando à morte prematura. Por tudo isto, juntamente com outros pais e profissionais de saúde, constituímos uma associação sem fins-lucrativos, a DEBRA Portugal, em 2010. Desde então, conseguimos criar material informativo para os doentes e famílias, um manual da abordagem integrada ao doente com EB para profissionais de saúde e consultas multidisciplinares especializadas nesta patologia. Promovemos ainda a capacitação dos doentes e famílias, apoio ao domicilio,  acompanhamento às consultas, e oferecemos material de penso especializado aos doentes mais carenciados. Com pouco conseguimos dar a estas famílias muito. É um projeto muito gratificante que me dá um enorme retorno e satisfação.

– Uma ideia para promover a investigação da U.Porto a nível internacional?

A investigação da U.Porto é já reconhecida a nível internacional, como mostram os relatórios institucionais, onde estamos na posição 220 no ranking mundial sobre a reputação académica (QS World University Rankings). Mas muito ainda pode ser feito para sedimentar o reconhecimento internacional, nomeadamente a promoção de acordos de cooperação com instituições internacionais conceituadas, promovendo projetos conjuntos com potencial de transferência de tecnologia. Outra vertente importante é o investimento em jovens investigadores, criando condições para uma carreira de investigação académica.