Pertencer a um baixo estrato social tira cerca de dois anos de vida

Estudo publicado na revista “BMC Public Health”, mostrou que nos locais de maior privação socioeconómica os homens vivem em média menos dois anos e as mulheres um ano.

Um estudo em que participam investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) concluiu que as condições socioeconómicas influenciam a esperança média de vida. Verificou-se que nos locais de maior privação socioeconómica os homens vivem em média menos dois anos e as mulheres um ano.

O trabalho, publicado na revista “BMC Public Health”, foi desenhado com o objetivo de calcular a esperança média de vida para diferentes estratos sociais da população portuguesa, de acordo com o nível de privação socioeconómica dos seus locais de residência – indicador que tem em conta as características da habitação, desemprego, nível de escolaridade, etc.

Para tal, os investigadores construíram tábuas de mortalidade, uma ferramenta estatística que fornece informação sobre a mortalidade e a probabilidade de sobrevivência de um indivíduo, que se encontra estratificada por idade e sexo, e, neste estudo, também por período temporal e condição socioeconómica, algo realizado pela primeira vez no nosso país.

A análise da evolução da esperança média de vida da população portuguesa centrou-se nos anos de 2000-2002 e 2010-2012.

Verificou-se que a esperança média de vida à nascença aumentou dos 74 para os 77.6 anos, no caso dos homens, e dos 80.9 para os 83.8 anos, no caso das mulheres, na década em análise. Contudo, este aumento variou de acordo com o nível de privação socioeconómica. Constatou-se que nos locais de maior privação socioeconómica os homens vivem em média menos dois anos e as mulheres menos um ano.

Segundo Luís Antunes, primeiro autor do trabalho, no qual também participaram os investigadores Camille Maringe e Bernard Rachet, da London School of Hygiene and Tropical Medicine, London, “vemos que a esperança média de vida da população aumentou, mas não houve uma redução das desigualdades ao nível da mortalidade, entre grupos socioeconómicos, ao longo da década analisada. De facto, estas desigualdades ainda podem ser reduzidas”.

Urge, por isso, “tomar medidas que contribuam para a diminuição das desigualdades no acesso à saúde, visto que há uma franja da população que poderá beneficiar de melhores resultados em saúde, caso tenha as mesmas condições dos mais favorecidos”, adianta.

De sublinhar que a metodologia de análise estatística utilizada na investigação e a construção das tábuas de mortalidade poderão ser úteis a outros estudos que pretendam, por exemplo, monitorizar desigualdades sociais ou comparar a sobrevivência de doentes oncológicos.

O artigo designado Deprivation-specific life tables using multivariable flexible modelling – trends from 2000–2002 to 2010–2012, Portugal foi também assinado pelas investigadoras do ISPUP, Denisa Mendonça e Ana Isabel Ribeiro, e encontra-se disponível aqui.

Para além da Unidade de Investigação em Epidemiologia (EPIUnit) do ISPUP, participam também no estudo o Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO Porto), o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da U.Porto (ICBAS), a Faculdade de Medicina da U.Porto (FMUP) e a London School of Hygiene and Tropical Medicine, London, UK.