Paulo Cunha e Silva é a Figura Eminente da U.Porto 2019

Paulo Cunha e Silva foi professor de Pensamento Contemporâneo na Faculdade de Desporto da U.Porto. (Foto: U.Porto)

Foi “uma figura luminosa para a Universidade do Porto e para a cidade” e, pouco mais de três anos após a sua morte, continua a ser uma referência para o futuro. É  com base nestas premissas que Paulo Cunha e Silva será a Figura Eminente da U.Porto 2019, iniciativa que, ao longo do ano, se propõe a celebrar a memória e o legado do “docente, do investigador e do pensador que partiu do estudo do corpo para a compreensão da cidade”.

O antigo estudante e professor do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e da Faculdade de Desporto (FADEUP) da U.Porto, produtor cultural e ex-vereador da Cultura da Câmara Municipal do Porto junta-se assim ao leque restrito de personalidades eméritas que a instituição vem homenageando ao longo da última década.”Polinizando os mais diferentes palcos culturais com a sua corporologia e defendendo a criação artística como meio de exploração e criação de futuro, Paulo Cunha e Silva afirmou-se como um crítico e um influenciador do pensamento de dimensão nacional”, justifica a Universidade.

É essa dimensão que a U.Porto pretende destacar através de um programa multidisciplinar comissariado por Manuel Janeira e Teresa Lacerda e que, até final do ano, vai “homenagear o pensador do futuro, convocando múltiplos territórios e atores em aproximações oblíquas e travessas, ao gosto do Professor Cunha e Silva”. Propõe-se, neste sentido, “não apenas assinalar, reconhecer e divulgar o seu pensamento, mas também dar futuro à sua obra”, grande parte dela ainda desconhecida do grande público.

Dividido em 16 momentos (Dobras), a decorrer em vários locais da cidade e da Universidade, aquele que foi batizado como o ano “Caosar” – ou Paulo Cunha e Silva não defendesse que “o caos é a mais bela assinatura do mundo” – tem como primeiro ponto alto a exposição “À Volta do Ato Médico”, que será inaugurada esta quarta-feira, 3 de abril, na Reitoria da U.Porto.

Reunindo objetos do Museu da História da Medicina da FMUP, Museu de Anatomia do ICBAS, Museu da FBAUP, Museu de História Natural e Ciência da Universidade do Porto, INEGI, LABIOMEP e Museu do Centro Hospitalar do Porto (Hospital de S. António), esta exposição procura estabeelcer nexos entre o diagnóstico e a intervenção médica no corpo humano e o diagnóstico e a intervenção cultural, social e política. Recupera-se deste modo uma proposta que o próprio Paulo Cunha e Silva apresentou à Universidade e que agora se concretizará, com base no guião original por si desenvolvido em 2012.

Marcada para as 18h00, a inauguração da exposição marca também a abertura dos novos espaços de fruição cultural que a Universidade do Porto vai abrir à cidade na sua “casa mãe”, em plena baixa do Porto. Quadruplicando o espaço disponível até agora, a U.Porto passa a ter em pleno centro da cidade novas salas de exposições e um auditório multifunções, com programação regular ao longo de todo o ano, aberta ao público em geral.

Para assinalar o momento, e já depois e uma primeira visita guiada à exposição, terá lugar uma mesa redonda com a participação do Presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira, do Reitor da Universidade do Porto, António de Sousa Pereira, e de José Barros, docente do ICBAS e Diretor Clínico do Centro Hospitalar do Porto. A sessão será moderada por Fátima Vieira, Vice-Reitora da U.Porto com o pelouro da Cultura.

“16 Dobras” que prometem “Caosar” a cidade

A exposição, que estará patente na Reitoria até 9 maio, será então apenas uma de várias iniciativas (ver programa) – entre exposições, conferências, conversas, concertos, performances e  edições – que vão marcar as comemorações da Figura Eminente da U.Porto 2019. Iniciadas simbolicamente no passado dia 23 de março, com um concerto da Orquestra Sinfónica do Porto na Casa da Música, as celebrações vão passar, ainda este mês de abril, pela FADEUP (dia 10) e pela Casa Museu Abel Salazar. Neste último espaço será recriada (de 15 de abril a  25 de maio) a primeira exposição – “As cores do corpo” – comissariada por Paulo Cunha e Silva, em 1990, no âmbito do centenário do nascimento daquele que foi uma das suas grandes inspirações: o médico, professor e investigador Abel Salazar (1889-1964).

Momento marcante  do ano promete também ser a exposição “Pensamento. Performance. Conhecimento” que estará em exibição a partir de 12 de junho, na FADEUP. Partindo de uma das expressões utilizadas por Paulo Cunha e Silva (“Ora vamos lá baralhar isto tudo”), esta exposição bibliográfica propõe-se a cruzar e promover todas as disciplinas com a arte para um entendimento do mundo.

As comemorações da Figura Eminente 2019 culminam em novembro e em dezembro, com o lançamento de duas obras que prometem lançar novas luzes sobre o pensamento de Paulo Cunha e Silva e o modo como este ” lançou pontes improváveis sobre todas as disciplinas”. Entre eles incluem-se “Caosar: Pensamento de Paulo Cunha e Silva”, uma compilação de textos inéditos da tese de doutoramento do homenageado; e um número especial da revista da Faculdade de Desporto (“Paulo Cunha e Silva: entre a indisciplinaridade e a transdisciplinaridade”), a lançar em dezembro.

Ainda no âmbito da homenagem, a U.Porto vai abrir candidaturas (de 15 de abril a 30 de junho) para a construção de um “Depósito” de memórias sobre Paulo Cunha e Silva, as quais darão origem a um site e uma exposição virtual.

Sobre Paulo Cunha e Silva

Licenciado em Medicina pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e mestre em Medicina Desportiva pela Faculdade de Medicina da U.Porto (FMUP), Paulo Cunha e Silva (1962-2015) foi Professor de Anatomia no ICBAS e Professor Associado de Pensamento Contemporâneo e Corpo e Desporto no Mundo Contemporâneo na Faculdade de Desporto (FADEUP), onde se doutorou em Ciência do Desporto. Foi também na FADEUP que se afirmou enquanto “pensador do corpo, dele fazendo irradiar relações improváveis com outros campos científicos e dilatando-lhe assim os sentidos – da anatomia à antropologia, da citologia às artes plásticas –, explorando múltiplas declinações de possibilidades interdisciplinares”.

Um dos principais responsáveis pela programação do Porto 2001, foi presidente do Instituto da Artes do Ministério da Cultura (2003-2005), Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Roma (2009-2012) e Comissário de um extenso programa no âmbito de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura. Comissário de várias exposições relevantes –  como foi o caso de “Depósito: anotações sobre densidade e conhecimento”, a exposição que, em 2007,  reuniu na Reitoria os depósitos dos vários núcleos museológicos da U.Porto -, foi também coordenador científico dos Estudos Contemporâneos da Fundação de Serralves, lugar onde promoveu diversas atividades em torno dos temas da cultura contemporânea.

Nos últimos anos da sua vida, destacou-se no papel de vereador da cultura na Câmara Municipal do Porto (2012-2015), no âmbito do qual desenhou iniciativas marcantes como Um objeto e os seus discursosCultura em expansão ou o Fórum do futuro.

O  percurso singular de Paulo Cunha e Silva foi distinguido com vários momentos de reconhecimento público. Considerado a Personalidade do Ano do Jornal Público e um dos 200 portugueses mais influentes pela revista Visão, foi condecorado pelo governo francês com o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras. A titulo póstumo, foi-lhe ainda atribuída a Medalha Municipal de Honra da Cidade do Porto. Faleceu precocemente a 11 de novembro de 2015, aos 53 anos, vítima de um enfarte do miocárdio.

Mais informações aqui.