Memórias do SAAL revisitadas em exposição na Faculdade de Belas Artes

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A exposição põe em destaque a necessidade de melhores habitações para os moradores dos bairros do Porto. (Fotos: Elvira Leite)

Em 1977, a pintora e educadora Elvira Leite fez das ruas e dos bairros do Porto o seu atelier. Quase 40 anos depois, é o resultado deste projeto de educação artística, desenvolvido no seguimento da extinção do Serviço Ambulatório de Apoio Local (SAAL), que vai estar em exibição / reflexão na exposição “Quem te ensinou? – Ninguém”, patente até ao próximo dia 25 de junho, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP).

O Serviço Ambulatório de Apoio Local (SAAL), foi um programa estatal concebido em 1974 por Nuno Portas, professor da Faculdade de Arquitectura da U.Porto (FAUP) e então Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo. A ideia passa por desenvolver por todo o país ações de renovação urbana lideradas por arquitetos e artistas, com o objetivo de combater as carências habitacionais que atingiam as classes mais populares. O projeto seria, porém, interrompido apenas dois anos depois, tendo ficado marcado pela demora na concretização de planos de melhoria de condições de habitação.

Foi esse “enorme sentimento de frustração” resultante da extinção do SAAL que levou Elvira Leite a “mudar-se” para o bairro da Sé, no Largo da Pena Ventosa, onde procurou dar voz e forma a inquietações e reivindicações mas também oferecer meios de expressão de identidade individual e coletiva à população. Durante cerca de um ano, a rua tornou-se assim um lugar de discussão de ideias, planeamento de atividades, demonstração de técnicas e por fim espaço de atelier onde crianças de todas as idades concretizaram um plano, construído em diálogo, que integrou os seus interesses e propostas.

É esse o “espírito” que é agora revisitado numa exposição organizada em núcleos de fotografias e diapositivos, produzidos por Elvira Leite, que documentam as diversas fases do projeto. A par da narrativa visual, a exposição recupera ainda entrevistas com alguns dos participantes, crianças e mães, então moradores do bairro da Sé, no Largo da Pena Ventosa.

Paralelamente à exposição, e para dar continuidade ao método de trabalho da proposta pela autora, a FBAUP vai promover oficinas de expressão artística para todas as idades e um programa de reflexões em torno de práticas de ensino artístico formais e informais. Na iniciativa vão participar professores da faculdade, estudantes do Mestrado em Estudos Artísticos e do Doutoramento em Educação Artística e o Serviço Educativo do Museu de Serralves.

Na Galeria do 1º Andar da FBAUP encontram-se ainda pinturas e documentos representativos do percurso de Elvira Leite enquanto estudante da ESBAP e artista em início de carreira.

Inaugurada a 21 de abril, a exposição “Quem te ensinou? – Ninguém” vai estar patente no Pavilhão de Exposições da Faculdade de Belas Artes da U.Porto de 22 de abril a 25 de junho e pode ser visitada de terça-feira a sábado, das 14h30 às 18h30.

A entrada é livre.

Sobre Elvira Leite

Natural do Porto, Elvira Leite (1936)  formou-se em Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Durante o curso, que completou em 1962, foi selecionada para participar em todas as Exposições Magnas e obteve o prémio Rodrigues Soares. Em 1968 foi reconhecida com o Prémio Nacional de Pintura.

Apesar do sucesso artístico muito precoce, Elvira Leite optou por uma carreira ligada ao ensino após a conclusão do curso de Ciências Pedagógicas na Universidade do Porto. Professora no ensino básico e secundário entre 1963 e 2000, foi também professora convidada de Didáctica Específica, na Faculdade de Psicologia e Ciências de Educação da U,Porto (FPCEUP), de 1989 a 2003.

A partir de 1976 dedicou-se também a atividades de animação cultural, foi consultora da UNESCO para o ensino artístico em países de expressão portuguesa e, a convite do governo português, planificou e coordenou ações de formação com mulheres emigrantes portuguesas em vários países europeus. Em maio 2004, foi condecorada pelo Presidente da República com a Ordem do Infante D. Henrique.