Médicos e doentes devem prevenir males maiores antes dos tratamentos

Médicos e doentes não devem sobrestimar os benefícios nem subestimar os malefícios de intervenções curativas, sob pena de aumentarem o risco de diagnósticos e tratamentos excessivos, injustificáveis e até mesmo eticamente questionáveis. O alerta é feito por Carlos Martins, do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, Unidade de I&D da Universidade do Porto, num artigo científico intitulado “Quaternary prevention: reviewing the concept”, recentemente publicado no European Journal of General Practice.

Neste artigo, o investigador e médico de família afirma que a prevenção quaternária é hoje mais necessária do que nunca e que deve estar presente nas mentes dos médicos sempre que propõem uma intervenção aos seus doentes, de modo a contrariar a sobremedicalização, o sobrediagnóstico e sobre sobretratamento.

“Na medicina contemporânea, o ser humano pode sofrer danos das intervenções médicas desde a conceção, na infância, ao longo de toda a sua vida saudável e durante uma doença aguda, crónica ou terminal. A Prevenção Quaternária visa tornar esta realidade reconhecível por médicos e doentes, insistindo na prevenção de todo o mal associado às intervenções médicas”, afirma o investigador do CINTESIS.

Segundo o especialista em Medicina Geral e Familiar, em causa está a “crescente popularidade dos exames periódicos de saúde, vulgarmente conhecidos como check-up”, a que não são alheias algumas “campanhas públicas, frequentemente guiadas por motivações económicas, que geram insegurança e levam a procurar cuidados médicos desnecessários”.

Além disso, continua, a atribuição do “rótulo de doentes” a pessoas perfeitamente saudáveis contribui para a polimedicação (uso de vários fármacos em simultâneo) e o sobretratamento, o que aumenta a probabilidade de se registarem efeitos adversos ou interações medicamentosas potencialmente graves.

O autor propõe, por isso, uma nova definição de Prevenção Quaternária, mais abrangente do que a usada atualmente a nível mundial, considerando-a como qualquer ação destinada a proteger doentes, mas também indivíduos saudáveis, de qualquer intervenção médica que possa ser mais prejudicial do que benéfica.

Este membro da European Network on Prevention and Health Promotion (EUROPREV), que integra a World Organization of Family Doctors (WONCA), entende que a aplicação deste novo conceito na prática clínica, de forma rotineira, permitirá “a prestação de melhores cuidados de saúde”, evitando ainda a administração de terapias que não estão adequadamente estudadas ou cuja eficácia e segurança não estão ainda suficientemente comprovadas.