Lima-de-Faria veio ao i3S fazer-nos repensar o DNA

“Vamos trabalhar”. Foi assim que António Lima-de-Faria, Professor Emérito da Universidade de Lund, na Suécia, e Doutor Honoris Causa pela Universidade do Porto, iniciou esta quarta-feira, a sua palestra no i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto. Na audiência estavam investigadores, estudantes de doutoramento e até alunos do ensino secundário, vindos de Cantanhede, de uma escola com o nome do investigador. Sala cheia para ouvir o que teria para dizer o investigador que fará 97 anos em julho e que foi um pioneiro no estudo dos mecanismos moleculares da divisão celular.

Lima-de-Faria veio ao i3S partilhar a sua experiência científica numa sessão aberta, organizada no âmbito do GABBA (Programa Graduado em Áreas de Biologia e Aplicada). E se o vasto curriculum do investigador fazia antever uma sessão com o devido peso da sabedoria, Lima-de-Faria trouxe também jovialidade, desafios ao pensamento e boa disposição, uma forma apaixonada de falar de ciência e um sentido de humor que arrancou algumas gargalhadas à audiência.

Inscrita na primeira e na última projeção da sessão, uma frase: “Life is basically simple”. Estava assim traçado o rumo da viagem que conduziu a audiência ao encontro de como se pensavam os sistemas biológicos e como visões mais disruptivas permitiram antever futuros mais distantes; como muitas vezes o pensamento estabelecido estava longe daquilo que se veio a provar mais tarde. Sabemos hoje, por exemplo, que o nível de semelhança entre os genomas do rato e dos humanos é de 90% mas, nos idos 80 ou “na pré-história da biologia molecular”, como lhe chamou Lima-de-Faria, julgava-se que não seria mais de 50%.

Grande parte do tratabalho do investigador t em-se focado no processo de evolução do DNA, estando as suas teorias sobre evolução sem seleção publicadas num best-seller: “Evolution without Selection – Form and Function by Autoevolution”. Há 20-30 anos pensava-se que quantos mais cromossomas, mais complexos seriam os organismos. Mas um veado, o muntjac-indiano, que possui apenas três pares de cromossomas veio por em causa esta ideia. O “primo” mais próximo do muntjac-indiano é o muntjac-de-reeve que possui 23 pares, tal como os humanos. Contudo, e apesar da extraordinária diferença no número de cromossomas, os dois muntjacs são praticamente indistinguíveis, sustentando o desafio radical que Lima-de-Faria faz em 1980, ao publicar “How to produce a human with 3 chromosomes and 1000 primary genes”. Uma possibilidade que reiterou no i3S. “É uma questão de organização, não de genes; os genes estão lá”, explicou, para rematar: “a questão é percebermos como as coisa coisas estão organizadas”.

“No futuro o DNA será menos importante do que se imagina. O RNA é que será a chave, e no entanto, hoje ainda sabemos muito pouco sobre RNA”, antevê Lima-de-Faria. Isto para conduzir àquilo que considera poder revolucionar ainda mais o conhecimento num futuro mais alargado: a Biologia Atómica. Algo que explica no seu 10º livro, o “Periodic Tables Unifying Living Organisms at the Molecular Level” acabado de publicar, em que propõe a organização sistemática dos organismos vivos noutra lógica que pode ser com base no nível atómico ou outras características físico-químicas, tal como os elementos nas tabelas periódicas.

Sobre António Lima-de-Faria

Nascido em Cantanhede em 1921, licenciado em Biologia pela Universidade de Lisboa, e professor na Universidade de Lund desde 1950, António Lima-de-Faria é um dos «pais» da biologia dos cromossomas. Autor de mais de 200 artigos dedicados ao estudo do DNA e dos processos moleculares envolvidos na divisão das células,  assina ainda mais de uma centena de publicações nas áreas da citogenética e da biologia

Além de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Porto (2002), Lima-de-Faria é cavaleiro condecorado pelo Rei Sueco e Grande Oficial da Ordem de Santiago, Portugal.