ISPUP alerta para maior risco de incidência de tuberculose nos sem-abrigo

De acordo com o estudo, a maioria dos sem-abrigo com tuberculose pertence ao sexo masculino e tem idades compreendidas entre os 25 e os 64 anos. (Foto: DR)

Um estudo liderado por investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) concluiu que, entre 2008 e 2012, a incidência de tuberculose nos sem-abrigo foi cinco vezes superior à registada nos restantes doentes (122/100 000 sem-abrigo versus 23/100 000 habitantes). Dos 17.655 casos de tuberculose assinalados, 734 ocorrem em sem-abrigo (4%), segundo este estudo que avaliou a incidência de tuberculose nos sem-abrigo em Portugal e a taxa de sucesso de tratamento da doença neste grupo, em comparação com a população infetada que não vive na rua.

Para o efeito, os autores conduziram um estudo longitudinal que incluiu todos os doentes com tuberculose (sem-abrigo e restante população) registados no Sistema de Vigilância Nacional de Tuberculose, entre os anos de 2008 e 2014, e utilizaram dados do Censo de 2011 para obterem informação sobre densidade populacional em Portugal, número de pessoas sem-abrigo, taxa de desemprego e percentagem de médicos por habitante.

A maioria dos sem-abrigo com tuberculose pertencia ao sexo masculino (77.7%) e tinha idades compreendidas entre os 25 e os 64 anos (76.8%). O consumo de álcool e de drogas era bastante superior nesta população comparativamente aos restantes membros da amostra.

A taxa de insucesso no tratamento da doença foi mais elevada nos indivíduos que vivem na rua do que nos restantes pacientes (28.6% vs 9.9%). A idade, a utilização de drogas endovenosas e a co-infeção VIH foram identificados como fatores para o fracasso terapêutico. Os autores verificaram que, por cada ano de envelhecimento, a probabilidade de insucesso aumentava 3% e que nos indivíduos com co-infeção VIH e injetores de drogas a taxa de fracasso no tratamento mais do que duplicava.

“A investigação corrobora resultados alcançados em estudos anteriores relativamente à taxa de insucesso no tratamento da tuberculose em sem-abrigo e avança com a identificação dos fatores responsáveis pelo fracasso terapêutico”, afirma Raquel Duarte, da Unidade de Investigação em Epidemiologia do ISPUP, e responsável pelo estudo.

Os autores chamam a atenção para a necessidade de se implementarem programas de tuberculose que visem alcançar a população afetada (sem-abrigo e restantes doentes), de forma a conseguir cumprir o objetivo de eliminar a Tuberculose em Portugal.

Para além de Raquel Duarte, também Margarida Dias (EPIUnit ISPUP), Pedro Sousa (EPIUnit ISPUP), Marta Gomes (EPIUnit ISPUP), Olena Oliveira (EPIUnit ISPUP), Margarida Abranches (EPIUnit do ISPUP), Rita Gaio (Departamento de Matemática, Faculdade de Ciências da Universidade do Porto), Margarida Correia-Neves (Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde da Universidade do Minho) e Eduarda Ferreira (Agrupamento de Centros de Saúde do Porto Oriental) colaboraram no estudo.

O artigo “Tuberculosis among the homeless: should we change the strategy?” foi publicado na revista “International Journal of Tuberculosis and Lung Disease” e desenvolvido no âmbito do Projeto “Menos Tuberculose”, o qual visa a deteção precoce de casos de tuberculose nos sem-abrigo, na cidade do Porto, e uma melhor compreensão da cadeia de transmissão da doença na cidade. O projeto é financiado pelos Estados Doadores –  Islândia, Liechtenstein e Noruega -, através do Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu, no âmbito do Programa Iniciativas de Saúde Pública (PT 06, Grant number 138DT1).