Investigadora do ISPUP desmitistica o afogamento seco e outros mitos

O afogamento é  uma das três principais causas de morte em crianças entre 1 e 14 anos de idade. (Foto: DR)

O afogamento é uma causa de morte comum, frequentemente evitável, especialmente em crianças. Clarificar os conceitos errados que são veiculados pelos órgãos de comunicação social e pelos próprios profissionais de saúde em torno do que é o afogamento é fundamental para prevenir a sua ocorrência e facilitar o resgate e o tratamento das pessoas que se afogam.

Neste contexto, um estudo publicado na prestigiada revista Cleveland Clinic Journal of Medicine, e no qual participou Catarina Queiroga, da Unidade de Investigação em Epidemiologia (EPIUnit) do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), propôs-se a desmistificar conceitos errados como “afogamento seco”, “quase-afogamento”, “pré-afogamento” e “afogamento secundário” e a esclarecer qual a terminologia adequada nesta área.

“Este estudo partiu de um caso específico. Em junho de 2017, os órgãos de comunicação social noticiaram que uma criança de quatro anos morreu, nos Estados Unidos da América, por afogamento seco ou secundário, dependendo da fonte, uma semana após ter tido um problema numa piscina. A notícia tornou-se viral, disseminando informação errada e fomentando o medo entre os pais, porque o afogamento seco não existe e também não acontecem casos de uma pessoa morrer devido a um afogamento, passado uma semana”, explica Catarina Queiroga.

A autópsia ao corpo da criança confirmou que esta morreu devido a uma miocardite e não devido a afogamento. Contudo, “o desmentido não teve o mesmo impacto que a notícia anterior”, sublinha a investigadora.

Desde 2002, a Organização Mundial da Saúde (OMS) define afogamento como um processo fisiológico de aspiração de líquido não corporal por submersão ou imersão, que pode conduzir a hipoxia (falta de oxigénio nos tecidos) e a paragem cardíaca. O afogamento pode ser fatal (quando há morte) e não fatal (quando a vítima sobrevive com ou sem sequelas), podendo ser interrompido e não levar à morte.

Como esclarece Queiroga, “só podemos falar de afogamento quando existe alguma dificuldade a nível respiratório, logo após a submersão ou imersão. Se uma pessoa esteve na água e não apresentou problemas respiratórios, após ter saído ou sido resgatada, não podemos dizer que esta sofreu afogamento, independentemente do que se passe a seguir”.

Apesar dos esforços em clarificar o conceito de afogamento, o uso de terminologia incorreta ainda persiste. “Não existe afogamento seco ou secundário e qualquer pessoa que apresente problemas respiratórios, tosse excessiva, espuma ou letargia depois de ter estado submersa, ainda que brevemente, deve ser levada imediatamente a um hospital para avaliação adicional”, acrescenta.

O estudo deixa claro que as pessoas que apresentam sintomas leves geralmente melhoram dentro de 4 a 8 horas após o afogamento. Contudo as vítimas resgatadas devem ser alertadas para o facto de que, embora seja uma condição muito rara, se desenvolverem novos sintomas, como tosse e falta de ar no espaço de 8 horas após o evento, devem procurar ajuda médica de imediato.

A melhor arma é a prevenção

Elaborado a pensar nos profissionais de saúde, o artigo sublinha a importância de os prestadores de cuidados de saúde saberem reconhecer uma situação de afogamento e de informarem preventivamente as pessoas antes da ocorrência dos incidentes. “Nas consultas de pediatria, os médicos estão numa posição privilegiada para passar informação rigorosa e que pode salvar vidas. É importante não propagar medo junto dos pais, dizendo-lhes que as crianças podem morrer uma semana após terem tido alguma aflição na água, quando isso não é verdade”, refere a investigadora.

Sugerimos sempre que os pediatras, à semelhança de outras recomendações de segurança rodoviária e em ambientes domésticos, passem aos pais a mensagem de que, para prevenir o afogamento, o mais importante é a supervisão constante dos filhos, ao alcance de um braço. Para crianças mais velhas, incentivam-se medidas complementares de segurança aquática, como aprender a sobreviver na água e a nadar. Importa também alertar os pais para a necessidade de irem de imediato ao hospital, caso ocorra algum incidente aquático que resulte em tosse excessiva, dificuldades em respirar ou cansaço”, acrescenta.

Recomenda-se ainda a supervisão constante das crianças, o uso de equipamentos de flutuação, como coletes, a utilização de barreiras físicas de acesso à água, como, por exemplo, as cercas, e ainda aulas de ambientação aquática para bebés a partir dos 6 meses.

Para Catarina Queiroga, “a adoção de terminologia clara nesta área é fundamental para melhor conseguirmos prevenir e tratar o problema. O uso de termos incorretos contribui para ocultar os verdadeiros perigos do afogamento em crianças e leva a que condições sérias e fatais sejam ignoradas por serem diagnosticadas erradamente como afogamento seco”.

“Se conseguirmos que os médicos transmitam informação correta aos pais, já estaremos a dar um grande passo a nível de prevenção do afogamento infantil”, conclui.

O afogamento é um grave problema de saúde pública, que é frequentemente negligenciado, sendo responsável pela morte de 372 mil pessoas por ano em todo o mundo. É também uma das três principais causas de morte em crianças entre 1 e 14 anos de idade.

O estudo designado ‘Dry drowning’ and other myths pode ser consultado aqui. O websiteNot out of the Water” disponibiliza informação adicional sobre prevenção de afogamento, dirigida a pais e educadores.