Investigador da U.Porto desenvolve videojogo para crianças com cancro

No HOPE, as crianças vestem a pele de super-heróis para combater o cancro.

Era uma vez um menino que vestia pijama e que ganhava super poderes quando rapava o cabelo… A narrativa foge ao tradicional universo dos super-heróis, mas eles não poderiam estar mais presentes no HOPE, título do videojogo desenvolvido por um investigador da Universidade do Porto e que se destina a ajudar crianças internadas com cancro a melhor combater a doença.

O projeto nasceu em 2013, a partir da constatação de dois problemas com que se debatem as crianças internadas com doença oncológica: a ansiedade e o elevado sedentarismo. Foi a pensar nisto que Hernâni Zão Oliveira, então a desenvolver a tese de mestrado em Oncologia no Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar (ICBAS) e no Instituto Português de Oncologia (IPO), começou a idealizar um “jogo sério” em 2D – para tablets e smartphones – onde os jogadores (dos 6 aos 10 anos) são desafiados a desmistificar a doença e a melhorar a sua condição física.

Para dar corpo ao projeto, o atual estudante do programa de doutoramento em Media Digitais da Faculdade de Engenharia da U.Porto (FEUP) contou com o apoio do grupo de investigação em videojogos da FEUP, do qual resultaria uma tese de mestrado em Engenharia Informática. Pelo meio, estiveram igualmente envolvidos designers, médicos, psicólogos e uma pessoa da área do cinema.

No início do jogo, a criança tem que rapar o cabelo da personagem para ganhar um superpoder especial.

Na prática, o HOPE conta a história de uma criança que, ao longo de vários níveis, percorrendo diferentes espaços (hospital, casa e escola), e contando com vários aliados (a família, o médico, os enfermeiros…), luta contra o cancro como um super-herói lutaria contra os maus da fita. Recorrendo a uma tecnologia inovadora que deteta os movimentos das crianças, o jogo inclui ainda uma parte de entretenimento que contempla a prática de exercício físico, para que os utilizadores consigam melhorar a sua condição física, respondendo mais eficazmente aos tratamentos.

A forte interatividade e o design apelativo são outras das mais-valias do videojogo, cuja eficácia foi comprovada através da realização de testes de usabilidade em crianças com e sem cancro. Pretende-se deste modo “cativar atenção dos mais novos e fazer com que o período de tempo que passam no hospital, em casa e na escola seja mais saudável e produtivo”, destaca Hernâni Zão Oliveira.

Com lançamento está previsto para 2018, o jogo é, contudo, apenas uma parte de um projeto que se destina também a quem acompanha as crianças no processo de tratamento. Nesse sentido, foram desenvolvidos um guia e uma aplicação móvel pensados para os pais e cuidadores e que, recorrendo à mesma narrativa utilizada no videojogo, têm como função ajudá-los a responder às dúvidas que vão surgindo nas crianças.

Reconhecimento internacional

Finalista dos concursos “The Next Big Idea” e do “Prémio Nacional Indústrias Criativas”, o Projeto HOPE chamou recentemente a atenção da multinacional Astellas Pharma, que o selecionou entre os cinco finalistas da segunda edição do Astellas Oncology C3 Prize. Promovido em parceria com Robert Herjavec, reconhecido investidor do programa de televisão Shark Tank, este concurso internacional visa distinguir projetos de base tecnológica que promovam o bem-estar de doentes com cancro e dos seus cuidadores.

Selecionadas a partir de mais de 160  projetos oriundos de 21 países, as cinco ideias finalistas – que incluem ainda dos projetos dos EUA, um da Irlanda e um da Bélgica – vão ser apresentadas no próximo dia 13 de novembro, na Cidade do México, durante a conferência anual da União Internacional para o Controlo do Cancro, a World Cancer Leaders’ Summit. Ao vencedor será atribuída uma bolsa no valor de 50 mil dólares e uma sessão de consultoria com Robert Herjavec. As restantes ideias recebem bolsas no valor de 12.500 dólares.

Para Hernâni Zão Oliveira, “este é um importante reconhecimento para divulgar nacional e internacionalmente o potencial português no desenvolvimento de projetos multidisciplinares na área da Inovação em Literacia em Saúde, um campo ainda recente de estudo, mas altamente pertinente”.

O HOPE foi uma das ideias que deu origem ao desenvolvimento do primeiro laboratório Português focado na Literacia em Saúde, o LACLIS – Laboratório de Criação em Saúde, sediado no U.Porto Media Innovation Labs (MIL), o Centro de Competências para os Media da Universidade do Porto.

  • Wandson Lisboa

    Eu só acho engraçado que…