Investigação i3S: Células invasoras, uma questão de vizinhança

Lígia Tavares é a primeira autora do artigo publicado na prestigiada revista PLOSGenetics. (Foto: i3S)

Um artigo publicado por um grupo de investigadores do i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto na prestigiada revista PLOSGenetics mostra pela primeira vez que suprimir a expressão do gene Myc – relacionado com o desenvolvimento dos organismos, com o envelhecimento e até mesmo com inúmeros tipos de cancro – em determinadas células afeta o comportamento das células adjacentes.

Apesar de se tratar de um gene muito estudado, nunca até hoje havia sido demonstrado como o Myc, quando alterado num conjunto de células, pode condicionar o desenvolvimento de outras células, de origem independente, através da comunicação entre células, sem que elas próprias tenham a função alterada.

Para chegarem a esta descoberta inédita, os investigadores utilizaram a mosca-da-fruta neste estudo, durante a fase de desenvolvimento do olho, para testar como é que o Myc afetaria o desenvolvimento deste órgão intimamente ligado ao sistema nervoso. Para isso, suprimiram a expressão do Myc nas células que dão origem aos fotoreceptores, um tipo de célula nervosa especializada na perceção da luz. O efeito que mais se destacava não era nessas células, que apesar de tudo ficavam menores, mas noutras células nervosas contíguas a estas, as células da glia, as quais proliferavam e invadiam o território das primeiras. Este comportamento de multiplicação e invasão pode ser comparado com os processos de regeneração, no caso de lesão, ou a invasão de tecidos de células cancerígenas.

Para compreender o potencial da descoberta é preciso reconhecer a importância dos nichos e da comunicação entre as suas células. Muitos estudos têm-se centrado nas células com expressão genética alterada mas, de há uns anos para cá, cada vez mais atenção tem sido dada à formas como as diferentes células se controlam umas às outras dentro de um tecido ou estrutura. «Quando pensamos num organismo, as células têm uma vizinhança que as condicionam; por isso devemos estudar as células sempre dentro desse contexto, os nichos», afirma Lígia Tavares, primeira autora do artigo. Por exemplo, explica-nos, «durante o desenvolvimento as células comunicam muito entre si para que haja coordenação na diferenciação, ou seja, cada uma ocupe a sua função e lugar».

Um outro exemplo é «em casos de lesão, quando algumas células são danificadas, o nicho celular funciona como um todo para corrigir o problema da melhor forma, não necessariamente da forma prevista originalmente», diz a investigadora. Este processo de controlo pela vizinhança é o que fica demonstrado neste trabalho. De facto, ao suprimirem a expressão de Myc num grupo de células, outras células vizinhas passam a proliferar e a crescer muito mais alastrando-se para o território que as primeiras ocupam. Não é claro se, neste caso, as células da glia invadem a zona dos fotoreceptores porque estão agressivamente descontroladas ou se é simplesmente um mecanismo para corrigir um potencial problema que esteja a ocorrer na zona; seja como for, o mecanismo depende da informação que as células da glia recebem das outras cujo Myc está suprimido.

Quando pensamos em sistema nervoso, pensamos logo em neurónios. Mas as células da glia também compõem este sistema complexo, juntamente com o neurónios. Segundo a Lígia Tavares, «sem células da glia, os neurónios não sobreviveriam durante um longo período de tempo, pois são as células da glia que fazem o suporte do sistema nervoso e alimentam os neurónios». Em números, sabe-se que nos humanos o ratio de neurónios e células da glia é de 1 para 1. Noutros primatas, parece haver mais neurónios que células da glia. «Comummente não se atribui a estas células muito valor. Poucos ouviram falar delas, a não ser quando se fala de glioblastomas. O nome deste tipo de cancro vem do radical glia», argumenta a investigadora, «e há trabalhos que provam que as células da glia são capazes de reverter o seu estado em situações de lesão, diferenciando-se depois em neurónios». Por isso, olhar para estas células e perceber como elas reagem a determinados sinais é extremamente importante para saber como intervir no sistema nervoso, seja qual for a situação fisiológica.