Imagem portuguesa destacada por site de ciência internacional

Joana Macedo, autora do artigo

Joana Macedo, autora do artigo

Um trabalho de uma equipa do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto (IBMC), em parceria com a universidade norte-americana Virginia Tech e o Hospital de S. João, foi recentemente destacado como Imagem Biomédica do Dia (“Biomedical Picture of the day”) pelo Imperial College de Londres. A imagem mostra uma célula humana embrionária dividir-se de modo irregular, acabando por formar um micronúcleo numa das células filhas.

O filme em destaque é parte dum trabalho recentemente publicado numa revista de prestígio internacional, a eLife, no qual a equipa, liderada por Elsa Logarinho, mostra como alguns tipos de aneuploidia viabilizam a formação das células filhas com informação genética incorreta.

Para duplicarem, as células têm que fazer cópias do DNA, organizá-las e empacotá-las em cromossomas. Trata-se de um processo complexo que se não for controlado e se der com erros, pode levar a graves consequências. No caso dos humanos, a informação genética é empacotada em 46 cromossomas sempre que é realizada uma divisão celular. Esses cromossomas são então alinhados simetricamente na zona central da célula-mãe, e, por fim, separados igualmente para cada uma das células filhas. Se, por alguma razão, as células receberem um número de cromossomas diferente da célula mão, designa-se de aneuploide.

Neste trabalho, os investigadores mostraram que células com um cromossoma a mais, condição designada por aneuploidia, acumulam com maior frequência erros durante divisão. Segundo os autores, “as aneuploidias são muito comuns em células cancerígenas que, apesar disso, continuam a dividir e a acumular erros”. De facto, a aneuploidia é uma das causas comuns de abortos e de defeitos congénitos quando ocorre em células reprodutivas, mas também surge em células adultas, por exemplo nas células cancerosas.

Elsa Logarinho, coordenadora da equipa

Elsa Logarinho, coordenadora da equipa

Os investigadores verificaram que células em divisão com uma cópia extra do cromossoma 7 ou do 13 eram “mais propensas a distribuição desigual de cromossomas entre as células filhas, quando comparadas com células com um número normal de cromossomas” diz-nos Joana Macedo, investigadora da equipa. Trata-se da primeira evidência de que uma aneuploidia causa instabilidade genética, explicando o elevado grau de aneuploidia encontrado em células cancerosas. Ou seja, com uma aneuploidia do cromossoma 13 a célula acumula facilmente mais aneuploidias a cada divisão, resultando, em última análise, em células completamente aberrantes.

Adicionalmente, os investigadores detectaram um aumento dos níveis de uma proteína chamada Spartin nessas células com cromossoma 13 extra . Elsa Logarinho explica-nos que essa proteína “é importante para a última fase da divisão celular, impedindo o sucesso na formação das células-filhas”. Por outras palavras, as células com um cromossoma 13 extra, não só acumulavam aneuploidias como eram incapazes de separar correctamente as duas células filhas, levando à acumulação de múltiplos cromossomas dentro de uma única célula.

Elsa Logarinho explica-nos que “o desafio futuro será determinar como, e em que medida diferentes aneuploidias com diferentes cromossomas supranumerários, podem afetar a estabilidade da células durante a divisão”. “Isto pode ser útil no desenvolvimento de terapias contra células cancerosas com aneuploidias” adianta a investigadora.