IBMC publica na “Science” novo mecanismo de controlo da divisão celular

Equipa liderada por Helder Maiato conseguiu manipular reação que leva à morte de células cancerigenas

Equipa liderada por Helder Maiato estabeleceu um novo paradigma no controlo da divisão celular.

Uma equipa de investigadores do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), da Universidade do Porto, assina um artigo na última edição da  prestigiada revista Science, no qual demonstra que a região central das células em divisão é capaz de medir a posição dos cromossomas, estabelecendo assim um novo paradigma no controlo da divisão celular.

O mecanismo revelado pelos cientistas portuenses funciona como uma “régua” que atrasa um dos últimos passos da divisão celular – a formação dos novos núcleos – para garantir que os cromossomas se distribuem corretamente entre as células filhas. O modelo apresentado pela equipa liderada por Hélder Maiato promete assim revolucionar o conhecimento sobre a vida e como ela se transmite.

O artigo, que integra a edição online da Science da passada quinta feira (12 de junho), é 100% “made in Portugal” e descreve um novo ponto de controlo na divisão das células. Todos os passos da divisão celular são sequenciais e só se inicia um novo passo se o anterior se desenrolar com sucesso. Estas transições são reguladas pelos denominados pontos de controlo, uma espécie de posto fronteiriço.

Segundo Irina Matos, uma das autoras do trabalho, “os pontos de controlo servem para verificar se a etapa anterior foi plenamente cumprida e sem erros”. São conhecidos inúmeros mecanismos que permitem evitar erros, parando a divisão em determinados momentos, fazendo revisões, rectificando incorreções e, caso isto seja impossível, conduzindo as células para autodestruição.

O modelo sugerido pela equipa de Hélder Maiato representa uma nova visão dos pontos de controlo que, segundo os autores, não podem ser olhados apenas como travões do “cronómetro” da célula, mas também como “réguas” que controlam espacialmente uma determinada transição. Esta “régua” define-se através de um  “gradiente químico que detecta atrasos no afastamento dos cromossomas e retarda o processo até que todos tenham atingido uma distância mínima de segurança”, afirma  Olga Afonso, também autora do trabalho.

O percurso até ao modelo

 A equipa do IBMC  procurava compreender os mecanismos que garantem que nenhum dos cromossomas fica fora dos núcleos que se formam na fase final da divisão celular. Os investigadores desvendaram algo simples que é uma solução elegante das células: a zona central, em Anáfase, funciona como uma “régua” ou “zona de exclusão” que avalia a migração do conjunto de cromossomas em movimento. Os novos núcleos só são autorizados a fecharem-se completamente quando os cromossomas estão suficientemente afastados dos cromossomas que migram para o polo oposto, mantendo uma área de segurança entre eles. Desta forma, garante-se que os cromossomas atrasados na separação não ficam perdidos e podem, ainda, juntar-se aos que migram mais à frente, integrando os novos núcleos. Cada célula assegura ter o número exato e composição correta de cromossomas,  garantido o sucesso da divisão.

Sobre o sucesso alcançado

Hélder Maiato dedica-se ao estudo da divisão celular, um dos fenómenos mais intrigantes da biologia. Para o investigador, “perceber a divisão celular permite descodificar uma base comum essencial para a vida de todos os organismos, com fortes implicações para a saúde humana”. Mas o que move Hélder Maiato é a compreensão dos processos biológicos ditos fundamentais, com o argumento que “só depois de os compreendermos é que será possível controlá-los”. Por esse motivo, considera muito gratificante o interesse da Science por este trabalho em concreto, que trata a descoberta “pela descoberta”, sem qualquer pretensão de aplicação à saúde humana