Investigadores premiados por tecnologia que impede formação da placa bacteriana

Investigadores do i3S, onde foi realizado parte do trabalho experimental do Biolocker. (Foto: i3S)

Uma equipa multidisciplinar do Instituto de Investigação e Inovação da Universidade do Porto (i3S) e das faculdades de Ciências e Tecnologia (FCTUC) e de Medicina (FMUC) da Universidade de Coimbra desenvolveu uma nova tecnologia, baseada numa molécula orgânica natural, que impede a formação de placa bacteriana, a principal responsável pelo surgimento da cárie dentária e de outras patologias dentárias. Este projeto, denominado Biolocker, foi o único vencedor português da 3.ª edição do Programa Caixa Impulse, no valor de 70 mil euros.

A Biolocker, cujo trabalho experimental foi parcialmente desenvolvido no i3S pelos investigadores Tiago Santos e Cláudia Monteiro no laboratório de Cristina Martins, está atualmente em processo de registo de patente internacional, e deverá chegar ao mercado dentro de dois anos.

A grande vantagem desta tecnologia, explica Tiago Santos, «está na capacidade de bloquear as principais interações bacterianas que ocorrem após a ingestão de alimentos, sem efeitos antimicrobianos, ou seja, funciona como uma espécie de revestimento antiaderente, impedindo a adesão das bactérias ao esmalte dentário e, deste modo, impossibilitando o processo de formação da placa bacteriana». «Como estas bactérias (género streptococcus) funcionam como alicerce, ao retirar a âncora impedimos que todas as bactérias a jusante se possam fixar», acrescentam os investigadores da Universidade de Coimbra Daniel Abegão, Filipe Antunes e Sérgio Matos.

Além da satisfação pessoal, sublinham o investigador do i3S e membro da equipa Biolocker, Tiago Santos, «este prémio é a prova da importância e da necessidade de um maior investimento na área da saúde oral, existindo um nicho de mercado ainda por explorar». Os tradicionais antisséticos são de largo espectro e, por isso, recorrem a uma estratégia de “terra queimada”, eliminando as boas e as más bactérias, o que pode danificar a flora oral residente, que é extremamente benéfica para a saúde geral do organismo. Este novo método «garante proteção por muito mais tempo, durante todo o dia, complementando a eficácia da escovagem, suplantando as limitações dos atuais produtos de higiene oral», sublinham os investigadores da FCTUC e FMUC.

Em termos de saúde oral, ou mesmo numa perspetiva de política de saúde pública, salienta Sérgio Matos, médico dentista e professor da Faculdade de Medicina da UC, a grande mais-valia da Biolocker é a contribuição extraordinária para a prevenção de problemas dentários «permitindo que, através de uma tecnologia massificada e barata, a população passe a ter acesso a uma melhor higiene oral.»

«Em Portugal, a saúde oral é maioritariamente proporcionada por cuidados privados e, consequentemente, muito onerosos. A maneira mais eficaz de podermos combater todas as patologias da cavidade oral é através da prevenção, reduzindo custos com tratamentos», observa Sérgio Matos. Além disso, esta abordagem «ser incorporada em pastas dentífricas, elixires, fio dental ou até pastilhas elásticas»,

Tendo em conta que a «cárie e as doenças gengivais são as patologias infecciosas mais prevalentes no mundo, o desenvolvimento de ferramentas preventivas é essencial», reforça o investigador.