i3S lidera projeto de 2,5 milhões para inovar no tratamento do cancro

Projeto é liderado por Joana Paredes, investigadora principal do grupo Cancer Genetics do i3S. (Foto: Teresa Castedo)

Cerca de 75 investigadores de 18 equipas de investigação portuguesas uniram esforços no âmbito do projeto «CANCEL STEM – Estaminalidade das células do cancro», para explorar novas formas de entender e combater o cancro. Trata-se de um mega projeto de 2,5 milhões de euros, financiado pelo Portugal 2020 e liderado pelo i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, ao qual se juntam investigadores do Centro de Neurociências e Biologia Celular – CNC, da Universidade de Coimbra, e do Instituto Gulbenkian de Ciência – IGC. O objetivo é claro: compreender as características quasi-estaminais de algumas células cancerígenas e, com isso, desenvolver novas abordagens de tratamento em Oncologia.

Para Joana Paredes, investigadora do i3S que coordena o projeto, este “não só vai permitir consolidar a investigação nacional em “Cancer Stem Cells“, uma área que se encontra muito fragmentada no nosso país, como vai permitir convergir esforços de excelentes investigadores que trabalham em três áreas distintas, mas complementares». Do i3S participam no projeto sete equipas de investigação.

O consórcio deste projeto foi estrategicamente desenhado para reunir investigadores nacionais, com competências complementares, que trabalham para alcançar objetivos comuns, que também não são simples. E são estes os objetivos para os próximos três anos: identificar particularidades únicas das células tumorais com características estaminais, entender o seu funcionamento, identificar os alvos potenciais e diferenciadores na superfície dessas células, e desenhar fármacos que as ataquem, bem como desenvolver formas de entrega específica desses fármacos. Ou, por outras palavras, descobrir os segredos destas células fundadoras para encontrar formas de cortar o mal pela raiz.

Joana Paredes explica que, «na maioria das abordagens terapêuticas, os tumores são considerados como uma massa homogénea de células. No entanto, muitos trabalhos recentes têm demonstrado que apenas uma pequena percentagem das células neoplásicas que constituem um tumor têm capacidade de o regenerar», sendo estas responsáveis pelas elevadas taxas de recidiva em doentes oncológicos. Este conjunto de células tumorais adquirem, por alguma razão, propriedades muito semelhantes às células estaminais normais, sendo capazes de se autorrenovarem, de se diferenciarem nas restantes células do próprio tumor, e de serem resistentes às terapias convencionais.

«As células estaminais normais estão na base do desenvolvimento de qualquer organismo, dando origem a todos os nossos tecidos e órgãos», como explica a investigadora. E adianta, «na idade adulta conservamos pequenos reservatórios de células estaminais normais que garantem a recuperação e regeneração tecidular sempre que necessário». As principais características de qualquer célula estaminal residem na capacidade de se dividirem e se diferenciarem noutra célula qualquer, mais específica e funcional. São precisamente estas características que têm as células cancerígenas com propriedades estaminais, não obstante serem geneticamente aberrantes.

Os cancros formam tecidos anómalos que invadem os tecidos vizinhos e, eventualmente, tecidos mais distantes, quando se inicia o processo de metastização. As abordagens mais comuns para combater essas massas de células tumorais passam pela identificação das mutações genéticas que caracterizam as células tumorais e, dessa forma, procuram identificar alvos específicos para administração de fármacos também específicos. Contudo, mesmo depois da remoção e do tratamento dos tumores, surgem frequentemente recidivas e novas metástases. Nesta linha de pensamento, defende Joana Paredes, «as células tumorais com características estaminais poderão ser de facto as responsáveis por estas recidivas» e, acrescenta, «sabe-se que essas células, por terem características estaminais, não expressam os mesmos marcadores que as restantes, podendo, por isso, escapar aos tratamentos específicos».

Poder-se-á perguntar por que não atacar logo esse grupo de células mas, explica a coordenadora do projeto, «é muito difícil diferenciar as células tumorais com características estaminais das células estaminais propriamente ditas, as quais são essenciais para nós». Atacar umas sem destruir as outras parece, para já, virtualmente impossível. É neste campo de trabalho que o projeto CANCEL STEM se propõe atuar.

O Portugal 2020 agrega Fundos Europeus Estruturais e de Investimento (FEDER), com o objetivo de alinhar grandes orientações estratégicas para o desenvolvimento económico, social e territorial do país. As propostas nacionais que concorreram a este fundo foram submetidas em novembro de 2015, e os resultados conhecidos recentemente: de um total de 51 projetos apresentados a concurso aos Programas de Atividades Conjuntas (PAC) foram aprovados oito.