Faleceu Óscar Lopes, professor histórico da Faculdade de Letras

Óscar Lopes (Foto: DR)

Ajudou a “contar” a história da literatura portuguesa, notabilizou-se como ensaísta e crítico literário e, entre muitos outros epítetos que cabem num percurso singular, foi professor e o primeiro diretor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) no pós-25 de abril. Nome maior da história da Universidade e da cultura portuguesa do século XX, Óscar Lopes faleceu esta sexta-feira, 22 de março, aos 95 anos de idade.

Natural de Leça da Palmeira, onde nasceu a 2 de outubro de 1917, Óscar Lopes licenciou-se em Filologia Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. A paixão pela história, pela literatura e pela pedagogia encaminhou-o então para uma carreira de professor do ensino secundário, que incluiu passagens pelo Liceu Nacional de Vila Real e pelos liceus Alexandre Herculano e Rodrigues de Freitas, no Porto.

Num trajeto onde o ensaísta e o professor caminham lado a lado com o ativista político (foi militante do Partido Comunista Português, do qual fez parte do comité central), Óscar Lopes foi  impedido de lecionar no ensino superior antes do 25 de abril, por motivos políticos. Após a Revolução, ingressa na Faculdade de Letras da U.Porto como professor catedrático, cabendo-lhe liderar os destinos da instituição até 1976. Até à sua jubilação, 13 anos depois, foi vice-reitor da Universidade (1974-1975), no reitorado de Ruy Luís Gomes, e fundou o Centro de Linguística da U.Porto.

“A sua atividade na Universidade do Porto e na Faculdade de Letras tem uma enorme marca. Em muitas pessoas é uma referência ou porque privaram com ele ou porque o admiravam ou porque foram seus alunos”, referiu o reitor da U.Porto José Marques dos Santos, à agência Lusa, à margem das comemorações do 102.º aniversário da Universidade.

A morte de Óscar Lopes mereceu, de resto, reações de pesar dos mais variados quadrantes da vida cultural e política portuguesa. “É uma perda imensa. Era uma das pessoas mais disponíveis que conheci. Certamente um dos maiores intelectuais portugueses do século XX. De sempre”, lembrou Isabel Pires de Lima, professora catedrática da FLUP e ex-ministra da Cultura, em declarações ao Público. Já o Presidente da República, Cavaco Silva, evoca o ensaísta como “um dos intelectuais que mais decisivamente marcaram a cultura portuguesa ao longo do último século”.

Paralelamente à carreira académica, Óscar Lopes distinguiu-se como crítico literário e autor de inúmeros ensaios no domínio da linguística e da literatura. Com o historiador António José Saraiva, escreveu  a “História da Literatura Portuguesa”, obra que continua a ser uma referência fundamental no ensino daquela disciplina.

O valor da sua obra foi várias vezes reconhecido, em vida, com algumas das mais importantes distinções nacionais no campo da cultura. Pelos seus trabalhos de ensaio e crítica recebeu o prémio Rodrigues Sampaio da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e o prémio Jacinto do Prado Coelho(1985). Em 1989 foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, e, em 2006, com a Ordem da Liberdade.