Estudo do i3S prova que a agricultura chegou à Ibéria via Mediterrâneo

A agricultura e domesticação de animais surgiu no Médio Oriente e foi-se espalhando gradualmente pelo espaço europeu. (Imagem: DR)

Uma equipa de investigadores liderada pelo i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto, e pela Universidade de Huddersfield (Reino Unido), demonstrou geneticamente a chegada de populações à Península Ibérica vindas do Médio Oriente através da costa do Mediterrâneo, durante o Neolítico. Com esta descoberta, publicado na revista Proceedings of the Royal Society B, prova-se que uma das mais importantes revoluções culturais e tecnológicas da pré-história chegou até nós há cerca de 8-7,5 milhares de anos, por uma migração através do Mediterrâneo e englobando muitas linhagens autoctones.

A agricultura e domesticação de animais surgiu no Médio Oriente e foi-se espalhando gradualmente pelo espaço europeu, acabando por substituir a cultura de caçadores-recolectores que até então dominava. A chegada dessa nova cultura ao velho continente deu-se na denominada era neolítica, revolucionando a demografia do velho continente escassamente populado. A agropecuária promoveu a fixação e o crescimento de populações até então impossíveis de sustentar.

Joana Pereira e Luísa Pereira, primeira e última autora do artigo, são investigadoras da área da genética das populações. (Foto: i3S)

Na Europa Central, as avenidas para a disseminação da nova cultura terão sido os grandes rios, como o Danúbio, por onde populações migraram, substituindo as que aí habitavam, deixando fortes marcas genéticas nas populações atuais. Mas há um percurso alternativo para a chegada à Península Ibérica: o Mar Mediterrâneo. Esta hipótese tem sido apontada por alguns arqueólogos, que pensam que a expansão terá sido muito rápida e por barco. No entanto, até agora não havia qualquer estudo genético a comprovar esta hipótese.

Ora, a equipa liderada por Luísa Pereira, do i3S, em colaboração com o Martin Richards, da Universidade de Huddersfield, acaba de fornecer fortes evidências genéticas dessa viagem ancestral. Segundo a investigadora, «provamos que um contingente pequeno de população do Médio Oriente chegou primeiro à Península Itálica, há cerca de oito milhares de anos, instalando-se e misturando-se com as populações locais». Depois deste evento fundador, adianta, «rapidamente as novas populações mistas se deslocaram pela costa até atingirem a Península Ibérica, há cerca de 7,5 milhares de anos, misturando-se novamente com os nativos».

Ou seja, a chegada da revolução neolítica ao nosso território deu-se pela chegada de novo conhecimento trazido por poucas pessoas que participaram nesta expansão cultural. As marcas genéticas que herdámos permitem desenhar o percurso dessas populações ancestrais, bem como os momentos dessa migração. E uma coisa parece clara, apesar de haver populações oriundas do Médio Oriente a migrar pelo Sul, o número de fundadores era reduzido, gradualmente diluindo-se nas populações autóctones. Arqueologicamente, a nova cultura prevaleceu. Estas populações mistas, com recurso às novas tecnologias agropecuárias, densificaram o território sem uma substituição populacional, ao contrário do que parece ter ocorrido na Europa Central/Leste.

O trabalho dos investigadores centrou-se nas linhagens matrilineares (DNA mitocondrial, mtDNA) das populações atuais, traçando o percurso de um pequeno grupo dos nossos ancestrais até ao Médio Oriente. Segundo Joana Pereira, primeira autora do artigo, a equipa utilizou «amostras das populações atuais para encontrar essas marcas e desenhar essa rota de migração junto ao Mediterrâneo; isto não exclui a influência de outras rotas migratórias nos acontecimentos operados na Península Ibérica».

O método matemático a que os investigadores recorreram para rastrear esta deslocação de populações é muito preciso quando aplicado a sequências completas de mtDNA. Segundo os autores, permite não só traçar o percurso como determinar com rigor os tempos dessa migração, comprovando que, depois de estabelecido o primeiro foco na Península Itálica, o salto até à Península Ibérica se deu muito rapidamente.